Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médicaca
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo da Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
10.11.11 Dr. Giorgio Trotto

Uma mulher negra, filha de um casamento inter-racial, com pouco mais de cinquenta anos, separada e mãe de um filho adolescente, portadora de lesão do plexo braquial desde o nascimento, foi encaminhada por seu médico assistente para tratamento na Psicologia Médica por estar deprimida. Compareceu à primeira entrevista vestida de maneira bastante simples, com os cabelos mal cuidados e penteados de uma maneira não usual. Seu andar era lento e com um dos braços permanentemente dobrado junto ao corpo. A aparência geral era estranha e maltratada. Além disso, falava com a cabeça permanentemente abaixada e com a voz quase inaudível, dando a impressão de grande timidez. Nessa entrevista relatou a origem da sua lesão, ocorrida logo após seu nascimento por desatenção de uma enfermeira, que não notou a posição que seu braço estava era inadequada, e expressou sentir-se constantemente envergonhada e facilmente humilhada por causa do defeito que tem no braço, embora a terapeuta não observasse nenhuma atrofia ou deformidade no referido braço. Sua aparência e sua maneira de falar estavam muito melhor no segundo atendimento, no qual mostrou-se bem arrumada e desembaraçada para falar. Com muita clareza detalhou o quanto se sentia desprezada desde o nascimento por sua mãe por ter nascido negra como o pai. Interrompeu o atendimento poucas consultas depois alegando ter que cuidar da mãe e do filho.

O primeiro ponto ressaltado na discussão do caso foi a inadequação entre a sintomatologia e a lesão relatada pela paciente: além de não apresentar as sequelas comuns nesse tipo de lesão, a sintomatologia envolvendo a marcha era excessiva, tudo dando a impressão de que a paciente criara uma imagem corporal muito mais lesada do que a realidade de sua lesão. Além disso, o relato sobre a circunstância pouco comum em que se deu o aparecimento depois do nascimento desse tipo de lesão, atribuída pela mãe à enfermagem, levantou a suspeita de estar aí envolvida uma projeção da culpa materna, seja por ter causado a lesão da filha ou por rejeitar a filha lesada. Seguindo essa linha, discutiu-se qual seria a lesão mental que a paciente apresentava e que havia se superposto à lesão física e foi consensual que provavelmente seria uma lesão diádica, uma falha básica. A reunião foi encerrada com a discussão sobre os possíveis motivos inconscientes que levaram a paciente a interromper o tratamento apesar dos sinais de melhora em seu estado de humor revelados através da melhora em sua aparência.

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