Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médicaca
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo da Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
15.07.2010 Dr. Decio Tenenbaum
Uma mulher de mais de 80 anos, casada, sem filhos e aposentada, internou-se para a 3ª cirurgia para retirada de um bócio tireoidiano. Os exames revelaram um importante risco de trombo devido a uma obstrução em uma das artérias carótidas, em virtude do que a paciente foi medicada com anticoagulantes. Durante a cirurgia, que transcorreu sem maiores problemas, foi encontrado um bócio cujo crescimento colocou uma interrogação na eficácia das cirurgias anteriores. No pós-operatório a paciente apresentou um sangramento e dificuldades respiratórias que a fizeram voltar à mesa de operação e ser submetida à reabertura da ferida operatória e a uma traqueostomia. O acompanhamento da Psicologia Médica foi iniciado depois da alta da paciente, que sentia-se muito incomodada com a traqueostomia, mas não vinha seguindo a prescrição medicamentosa e de exercícios respiratórios para a traqueostomia poder ser fechada.
Proveniente de outro país, onde deixou os pais e irmãos, aqui chegou ainda adolescente para trabalhar e permaneceu na mesma empresa até se aposentar. Nunca mais voltou para ver os pais, tendo mantido contato unicamente epistolar. Viveu na casa de um tio até sofrer uma tentativa de abuso sexual e foi viver com uma prima, casando-se logo depois mais por insistência do pretendente do que por desejo dela. Não teve filhos e criou a enteada, cuja mãe morreu no parto. Hoje tem 1 neto. Acha que não teve filhos por castigo divino por ter feito um aborto aos 19 anos, de um namorado de quem se sente apaixonada até hoje, apesar dele não ter assumido a paternidade induzindo-a ao aborto.
Por ter casado com quem não amava e por não ter tido filhos, há muitos anos acha que sua vida não vale a pena ser vivida. Sente-se desanimada e não vê sentido em fazer os exercícios necessários para fechar a traqueostomia, ao mesmo tempo em que diz preferir morrer a viver assim. Também não segue a prescrição médica porque todas as medicações acabam lhe fazendo mal. A paciente continua em tratamento ambulatorial.

A partir do evidente sentimento de culpa da paciente e da dificuldade em seguir a orientação do seu cirurgião pode-se ressaltar que a questão central deste caso para a atuação em Psicologia Médica prende-se às condições pré-operatórias da paciente e às ocorrências per e pós-operatórias: a traqueostomia deveu-se à lesão do nervo laríngeo recorrente, que ocorreu em função do estado avançado da lesão, e o risco de morte foi devido à hemorragia provavelmente em virtude do uso de medicação anticoagulante, prescrita para diminuir o risco de trombose. Nesse caso, o objetivo central da Psicologia Médica é a diminuição do sentimento de culpa do cirurgião decorrente dos acidentes cirúrgicos praticamente inevitáveis, assim como a diminuição do sentimento de culpa da paciente, relacionado com elementos da sua história pessoal. Esse é o caminho para diminuir as tensões existentes na relação entre a paciente e o seu cirurgião.

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