Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médicaca
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo da Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
25.03.2010 Dr. Abram Eksterman
Um paciente de pouco mais de trinta anos, filho único, de aparência juvenil, solteiro, desempregado e ainda vivendo com os pais, foi reinternado para nova cirurgia de retirada de um tumor cerebral benigno, de consistência cística e localizado na região occipital. Em sua primeira internação, há dois anos, referiu a mesma sintomatologia: cefaléia e diminuição da acuidade visual. Habituada com a reincidência deste tipo de tumor, a equipe estranhou a piora acentuada da visão, não encontrando nenhuma justificativa clínica para a não melhora da dificuldade visual do paciente, que relatou uma acentuada piora neste aspecto, referindo estar completamente cego no momento.
Além da aparência juvenil, tinha uma postura sedutora e a maneira de falar, de pensar e de conduzir sua vida eram condizentes com a de um jovem: vivendo ainda à custa dos pais, e emocionalmente dependente deles, ainda indefinido profissionalmente, em luta com as figuras de autoridade e as instituições, e infantil em suas críticas, radicais e generalizadas. Por outro lado, tinha uma vida imaginativa muito rica, na qual sentia-se um lutador poderoso, defensor dos fracos, da ética e da moral, sempre encontrando justificativas para a sua inação. O único dado biográfico relevante não foi informado pelo paciente e sim pelo pai: poucos meses antes do início da sintomatologia foi contaminado com sífilis por uma ex-namorada. Poucos dias antes de ser operado criou uma situação difícil na enfermaria ao se mostrar sedutor e se insinuar para uma enfermeira. O paciente foi operado com sucesso e saiu de alta devidamente orientado a dar continuidade ao tratamento clínico e psicológico em regime ambulatorial.
A partir dos elementos psicodinâmicos de natureza histriônica apresentados pelo paciente (postura sedutora, por vezes feminina, denotando uma indefinição na identidade de gênero, comportamento regredido e inibido em sua ação, intensa vida de fantasia, de natureza compensatória, na qual a sexualidade estava denegrida, associada à violência e culposa), discutiu-se a possibilidade dele ser portador de amaurose histérica, e a importância da elucidação dessa hipótese diagnóstica junto à equipe médica, que sem encontrar justificativas clínicas para a cegueira referida pelo paciente, estava para operá-lo de um tumor cerebral com a possibilidade de estar sendo inconscientemente induzida por ele a realizar uma cirurgia mais extensa do que o necessário por conta da queixa de dificuldades visuais crescentes. Finalmente, abordou-se o uso psicoterapêutico das informações obtidas de outras pessoas que não o paciente.

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