Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médicaca
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo da Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
25.02.2010 Dr. Abram Eksterman

Uma moça de pouco mais de vinte anos, separada e com dois filhos menores de três anos, de uniões diferentes, foi internada com quadro de dispnéia, ascite e edema de membros inferiores. Portadora de febre reumática desde a primeira infância, com várias internações por descompensação cardíaca, apesar de ter feito acompanhamento medicamentoso regular. Já apresenta cardiomegalia e importante insuficiência valvular. Passou muito mal nos partos, tendo sofrido uma parada cardíaca no segundo. Voltou a morar com sua mãe acerca de um ano, após o pai do seu segundo filho ter se negado a reconhecer a paternidade, episódio que a fez sentir-se humilhada. Sempre fez acompanhamento medicamentoso e sua recente piora data de mais ou menos um mês, época que, coincidentemente, teve que sair da casa em que morava porque seu pai parou de pagar a pensão, o que a fez sentir-se novamente humilhada, e a mãe sofreu acidente automobilístico, passando a cuidar de seus irmãos menores. Disse ter brigado muito com o pai, de quem tem guarda muitas mágoas por ter abandonado a ela e aos irmãos depois que se separou da sua mãe quando ela era criança.
Seu estado entristecido mobilizou a equipe de enfermagem, que acabou solicitando o atendimento psicológico. Na enfermaria foi constatado que havia indicação de troca de uma das válvulas cardíacas, teve uma rápida recuperação clínica e saiu de alta com encaminhamento para a cirurgia.

O amadurecimento precoce da paciente, fato comum de se observar em doentes crônicos desde a infância, assim como em outras pessoas que tiveram que lutar pela sobrevivência desde muito cedo, denuncia uma situação de desamparo extremo e primitivo, que M. Balint chamou “falha básica”, e que pode contribuir para o comportamento onipotente da paciente, pois apesar de ser portadora de doença crônica incapacitante e fazer acompanhamento medicamentoso regular, parece querer levar a vida sem nenhuma restrição, expondo-se a sérios riscos.
Tudo leva a crer que esta crise orgânica deveu-se ao estresse desencadeado pela mudança de residência, verdadeira crise de espaço de segurança, somado ao aumento da atividade física em decorrência do acidente que a mãe sofreu.
Nestes casos, o objetivo da Psicologia Médica é estabelecer um vínculo com características diádicas para ajudar a paciente a se organizar diante dos desafios que sua doença representa.

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