Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo da Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
17.09.2009 Dr. Giorgio Trotto
Uma mulher de mais de sessenta anos, solteira, negra, de estatura baixa e magra, com um tom de voz baixo e com uma constante expressão facial de tristeza, iniciou tratamento ambulatorial há bem pouco tempo por apresentar quadro de labilidade emocional. Filha mais velha, ao nascer foi a única a ser dada pela mãe para ser criada por familiares distantes. Dessa família, onde vivia como empregada doméstica e foi abusada pelo tio, foi para um orfanato onde permaneceu até seus oito anos recebendo visitas esporádicas apenas do pai. Em seguida, foi para a casa de outra família onde foi impedida de estudar e tinha todas as obrigações da casa. Saiu dessa casa aos catorze anos e desde então trabalha como empregada doméstica morando no local de trabalho. Nunca teve nenhum namorado por ter aversão a qualquer contato mais próximo com homens. Disse se incomodar muito quando não a deixam fazer o que quer ou da forma como quer fazer. Atualmente, vive um conflito interior com a sua atual patroa, pois desenvolveu fortes sentimentos maternais pela filha pequena desta patroa e não concorda com a maneira como ela é tratada pela mãe. A própria paciente diz saber que a menina não é sua filha, mas sente como se ela fosse a filha que não teve. Seu estado de humor nas sessões psicoterápicas frequentemente oscila entre o choro copioso e a raiva intensa, principalmente da mãe.

A partir da constatação psicodinâmica de ser esta uma pessoa que, por deficiência dos vínculos básicos, não conseguiu desenvolver uma estrutura egóica que a capacitasse para lidar com os desafios da vida, levando-a a desenvolver uma capa narcísica defensiva dentro da qual vive tudo aquilo que a realidade lhe privou, foram discutidos alguns elementos básicos para a condução do processo psicoterápico em um ambulatório de massa em um hospital público: a importância do vínculo terapêutico e o papel terapêutico da criação do espaço de segurança neste caso.

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