Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo da Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
20.08.2009 Dr. Abram Eksterman
Uma senhora de quase oitenta anos, solteira, procurou atendimento no ambulatório de Clínica Médica da enfermaria com queixas de confusão na cabeça, tremores pelo corpo e aperto no peito. Após os primeiros exames não revelarem nenhuma anormalidade foi encaminhada à equipe de Psicologia Médica para avaliação e acompanhamento. Em seu primeiro atendimento psicológico disse que sua sintomatologia teve início há mais ou menos dez anos, quando sua mãe faleceu após ter sido por ela cuidada por mais de quinze anos devido a sequelas de um acidente vascular cerebral. Apesar de toda a dedicação, tendo inclusive voltado a morar na casa da mãe para melhor cuidar dela, a paciente relatou sentir-se culpada pela morte da mãe ter ocorrido pouco tempo depois de ambas terem se mudado para a casa da paciente. Na segunda consulta, a paciente falou do medo de acabar como o pai e o avô paterno que tiveram problemas mentais: o pai passou a maior parte do tempo internado numa clínica psiquiátrica, aonde veio a falecer, e o avô paterno apresentou um importante quadro depressivo do qual nunca se recuperou. Depois falou o quanto sentiu-se mal por não ter escutado a mãe e ter se envolvido, ainda muito jovem, com um homem casado acreditando que ele iria separar-se e casar com ela. Contou que a decepção foi tal que nunca mais se envolveu com ninguém. Continuou esse tema no encontro subsequente, no qual contou que para poder voltar para a casa dos pais precisou enfrentar seus familiares e, principalmente, um dos irmãos, justamente o que tentara abusar sexualmente dela na infância. Foi necessário revelar o fato para a família e ficou muito magoada porque embora tivesse conseguido voltar para casa, ninguém a apoiou. Chegou ao quarto atendimento muito séria e disse que o irmão que tentara abusar dela havia acabado de falecer após uma breve doença. Sentia-se libertada, com vontade de voltar a viver e livre dos sintomas que a fizeram procurar o tratamento. A paciente continua tratamento.

Caso exemplar de acompanhamento ambulatorial no qual em apenas quatro sessões conseguiu-se dissolver uma neurose de angústia estruturada a partir da perda da mãe e agudizada pelo adoecimento do irmão, estimulou o debate a respeito de questões relevantes no atendimento psicológico em um ambulatório de massa.

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