Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo da Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
16.04.2009 Dr. Abram Eksterman
Uma mulher de quase sessenta anos, aparentando ter mais idade e divorciada, foi internada com um quadro agudo de dor abdominal na região epigástrica, com início há vários meses e que, sem acompanhamento médico regular, vinha se automedicando com antiinflamatórios devido a uma dor ciática. Estava muito contrariada no dia de sua internação por ter sido trazida enganada, pois seus filhos sabiam que ela não aceitaria internar-se. Achava que deveria ter ido apenas a uma emergência para ser medicada e voltar para casa, como já tinha feito várias vezes. Sentia-se muito incomodada com a situação de depender do cuidado de outras pessoas e, além disso, disse detestar hospital desde a época em que foi obrigada a acompanhar um tio que faleceu de AIDS. Sentindo-se menos ameaçada, na sessão subsequente contou sobre a traição do marido que a levou a se separar e disse ter uma grande preocupação com dois de seus filhos, os quais vivem fazendo besteira na vida, apesar de sua ajuda e dedicação. A paciente recebeu alta para dar continuidade ao tratamento ambulatorialmente logo após a endoscopia ter revelado uma gastrite erosiva, provavelmente por uso abusivo de medicação antiinflamatória, sem sinais de malignidade.
A partir do sentimento de ameaça vivido pela paciente com a internação, discutiu-se o importante aspecto da semiologia psicológica que trata da distinção entre a experiência psicológica decorrente de uma patologia somática, usualmente experimentada como algo que vitima e ameaça o paciente, e a de uma patologia psicológica, geralmente vivida sem esse sentimento de ameaça e sim de conformação. Em seguida, foram abordados alguns aspectos marcantes da vida da paciente geradores de sofrimento psicológico, como a traição do marido e, principalmente, o caminho que alguns filhos estariam trilhando. Finalmente, foi assinalado que o fato da paciente ter saído de alta sem ter realizado que seu sofrimento físico poderia também ter alguma relação com seu sofrimento psicológico caracteriza uma alta psicologicamente precoce.

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