Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo da Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
02.04.2009 Dr. Decio Tenenbaum
Uma jovem de pouco mais de vinte anos, emagrecida, de estatura baixa, de aparência e comportamento infantil, solteira e portadora de epidermólise bollhosa distrófica recessiva, foi internada para tratamento de uma úlcera em um dos pés surgida a partir de um machucado que sofreu recentemente quando tentava atravessar uma linha de trem. Sua doença eclodiu logo após o nascimento, com bolhas e feridas pela pele e, atualmente, apresenta lesões em toda a pele e deformações nas mãos que a impedem de realizar diversas tarefas. Vive muito apegada à mãe, que a acompanhou durante toda a internação com alguns atritos com a equipe de enfermagem e, no primeiro atendimento realizado pelo membro da equipe de Psicologia Médica associada à enfermaria, quase não deixou a filha falar. Neste atendimento a paciente se mostrou inicialmente desconfiada e arredia. Embora tenha sido indicado acompanhamento também para a mãe, esta só se dispôs a fazer apenas um atendimento, no qual ficou evidente a sobrecarga emocional existente no cuidar da filha doente. Por outro lado, a filha em seus atendimentos se mostrou sempre muito aflita em se afastar da mãe, ao mesmo tempo em que falava de uma divisão entre uma menina boa e uma menina má. Relatou algumas experiências alucinatórias nas quais escutou vozes falando que ela ia perder a mãe e a mãe a ela. O atendimento a esta paciente mobilizou a equipe médica a ponto de a médica assistente pedir para se retirar do caso diante da gravidade da doença e da limitação da vida da paciente, que nem namorar poderia em virtude do provável trauma local que sofreria com a penetração. A paciente saiu de alta melhorada para dar continuidade a seu tratamento, clínico e psicológico, em regime ambulatorial antes que os exames atestassem a malignização de uma de suas lesões, fato que era esperado pela equipe.  A paciente deverá receber a notícia em sua próxima consulta ambulatorial e será encaminhada para o INCA.

A discussão se iniciou a partir da constatação se ser este mais um exemplo da relação sempre presente entre o aparecimento ou agravamento de uma doença e crise existencial. No caso em questão, a paciente, estigmatizada pela doença e infantilizada por uma mãe hostil, se vê presa a sentimentos ambivalentes em relação à mãe e à vida que a impedem de atravessar a linha que separa a mocinha da mulher. A única saída vislumbrada e geradora de muita ansiedade é a morte, anunciada através das vozes alucinatórias.

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