Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo da Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
26.03.2009 Dr. Decio Tenenbaum
Uma mulher de pouco mais de cinquenta anos, obesa, casada, mãe de três filhos, vem sendo acompanhada, atualmente de modo intermitente, pela Psicologia Médica há cinco anos, desde quando se internou para se submeter a uma tireoidectomia parcial por apresentar um quadro de hipotireoidismo devido à presença de um bócio multinodular na glândula tireóide. Na época, levou três semanas para conseguir se operar, pois sua cirurgia foi algumas vezes postergada devido a episódios hipertensivos. Neste período relatou que além do bócio e da hipertensão, também lutava para controlar sua glicemia, o colesterol e os triglicerídeos. Contou que aquela não era sua primeira cirurgia e nem sua primeira internação: retirou o útero quinze anos antes por conta de um câncer e foi internada com uma crise nervosa quando o pai morreu. Muito cedo fugiu de casa com um namorado e afastou-se completamente da família por causa dos maus tratos maternos. Sua mãe bebia e descuidava quase que completamente dos filhos, além de infringir muitos maus-tratos. Mulher determinada, de fala firme e decidida, que expressava sua raiva e agressividade com muita naturalidade, a paciente sentia-se infeliz no casamento devido às inúmeras brigas e desentendimentos que acabaram por levar a morarem em casas separadas. A cirurgia foi realizada com sucesso e a própria paciente solicitou a continuação do seu acompanhamento psicológico, o que foi feito ininterruptamente por dois anos. Neste período a paciente conseguiu mudar de postura em casa, tanto com o marido quanto com os filhos, mas a sombra de sua mãe permanecia inalterada em seu íntimo e a paciente interrompeu o acompanhamento para começar a trabalhar, passando a frequentar o ambulatório de maneira intermitente. Há pouco mais de um ano, teve mais algumas sessões psicoterápicas devido a uma crise de pânico desencadeada com a notícia do falecimento da mãe, e que foi rapidamente resolvida com o início da elaboração da imago materna, que acabou levando a paciente a visitar seus irmãos após quase quarenta anos de separação. A recente descoberta que um filho estava usando tóxicos a fez retomar o tratamento por ter desencadeado nela uma nova crise de ansiedade, desta vez sem síndrome do pânico, e também associada com a imago materna: as consequências que o uso de álcool teve na vida da mãe e na criação dos filhos e o medo dela ter sido para o filho o que a sua foi para ela.

Os aspectos ressaltados na discussão do caso foram os dois momentos diferentes do acompanhamento desta paciente: o momento inicial, cujo foco foi a diminuição da ansiedade e do estresse relacionados com a cirurgia, e o momento subsequente, caracterizado pelo processo ainda em curso de transformação psíquica através da elaboração de um objeto interno persecutório.

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