Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo da Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
05.03.2009 Dr. Abram Eksterman
Uma mulher de quase sessenta anos foi internada para a retirada cirúrgica de um dos dois tumores benignos localizados na base do crânio. Há dois meses ficou sabendo que suas tonteiras e a perda da acuidade auditiva de um dos ouvidos eram devidas a existência desses tumores e que o maior deveria ser retirado primeiro. Mulher de sorriso fácil e olhar triste, estava muito ansiosa com a cirurgia e dizia não poder morrer porque tinha um filho doente que precisava muito dela. Durante os atendimentos contou que ela e seus irmãos foram criados por diferentes famílias porque a mãe os abandonou ainda crianças pequenas e o pai não podia criá-los por precisar trabalhar. Aos dezessete anos fugiu da casa onde era criada com um namorado com quem viveu apenas um ano, voltando depois para a casa onde vivera. Casou-se anos depois, teve dois filhos e mais uma vez foi deixada: o marido “a trocou por outra mais jovem”. Contou ainda que só veio a conhecer o amor quando conheceu um homem mais jovem, com quem viveu por quase vinte e separou-se por não concordar em se converter à religião dele para casar. Nessa mesma época seu pai adotivo faleceu, começou a sentir-se deprimida e apresentar as tonteiras. Reencontrou sua mãe biológica já na maturidade e disse ter se decepcionado com ela: esperava encontrar carinho e amor, mas a mãe biológica era pior do que a adotiva (sic). Nessa época também veio a saber que, por um erro de seu pai,  foi registrada com um nome diferente do seu. A cirurgia foi realizada com sucesso, mas no período per-operatório a paciente gritou muito que estava doendo e que estavam machucando seu nariz. O pós-operatório transcorreu sem nenhum problema e a paciente não se lembrava do ocorrido durante a cirurgia. Ela saiu de alta devendo retornar para a segunda operação.

O aspecto psicodinâmico discutido na reunião foi a divisão interior da paciente, metaforicamente expressa de diferentes maneiras: através dos dois nomes, do medo de morrer e do desejo de viver, do desejo de casar e da recusa em se converter. O acidente per-operatório mostra que não há inconsciência completa durante a anestesia e que o medo (do desejo) de morrer estava muito presente neste caso.

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