Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo da Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
06.11.2008 Dr. Decio Tenenbaum
Uma mulher de quase cinqüenta anos, casada e com filhos, de aparência cansada e sofrida, reinternou-se para se submeter a uma segunda tireoidectomia parcial devido ao surgimento de novo nódulo benigno em sua glândula tireóide trinta anos após a primeira cirurgia, realizada quando ainda adolescente. Teve apenas duas consultas com o membro da equipe de Psicologia Médica associada à enfermaria, das quais o primeiro contato foi inicialmente difícil porque a paciente não estava disposta a conversar: além de ser uma pessoa retraída, estava chateada com o surgimento do novo nódulo, com medo de ser câncer e apreensiva com a cirurgia, especificamente com o fato de ficar anestesiada numa sala só com homens. Contou que veio para o Rio com onze anos de idade, trazida por um casal conhecido dos pais, para se tratar e depois voltar para a casa, mas o casal acabou postergando ao máximo a cirurgia da paciente, que só ocorreu quando com quinze anos. Durante esse tempo ficou trabalhando sem remuneração na casa desse casal, de onde acabou fugindo um ano depois de operar-se por causa dos assédios sexuais cada vez mais freqüentes do patrão. Foi trabalhar em outra casa onde acabou conhecendo e casando com seu marido. O relacionamento com o marido é tenso, principalmente por causa da sua frigidez sexual. Só voltou a ver seus familiares depois de casada e nunca entendeu porque seus pais nunca a procuraram e também não vieram buscá-la. A cirurgia foi um sucesso e o pós-operatório da paciente foi tranqüilo e sem intercorrências, ao contrário do anterior, no qual sentiu muitas dores, teve hemorragia e passou muito mal.

Iniciou-se a discussão ressaltando-se a freqüência de fantasias eróticas relacionadas com o ato cirúrgico. No caso apresentado, pode-se relacionar o receio da cirurgia com o trauma da sedução sexual: o método invasivo característico de uma cirurgia reavivou o trauma sexual, também uma experiência invasiva. Em seguida, discutiu-se algumas das conseqüências psicológicas do abuso sexual: na perspectiva do desempenho das funções paterna e materna, o abuso sexual quando realizado por um dos genitores ou seus representantes corresponde à destruição dessas funções, o que engendra a experiência de orfandade com os pais vivos.

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