Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
02.10.2008 Dr. Abram Eksterman

Um homem de mais de sessenta anos, casado, filhos e netos, foi internado para investigação de dor abdominal na região do hipocôndrio esquerdo, próxima às cicatrizes decorrentes de um acidente automobilístico sofrido há quarenta anos e no qual foi transfixado por uma barra de ferro. Vinha sendo acompanhado ambulatorialmente há quase dois anos sem melhora e foi internado para diagnostico diferencial que incluía o de somatização. Na enfermaria o paciente sempre se mostrou uma pessoa cordata, amável, disponível, nunca reclamava de nada e sempre elogiava as pessoas que o atendiam. Seu discurso era quase monotemático, girando sempre em torno da evolução da sua dor. Não a relacionava com nenhum evento de sua vida ou a qualquer outra coisa. Nada foi encontrado no vários exames a que foi submetido, exceto uma pequena massa em seu estômago, sem características de malignidade e sem nenhuma relação com a queixa álgica. O paciente melhorou enquanto estava sendo cogitada a possibilidade de uma investigação cirúrgica.

A discussão girou em torno dos pacientes, como o do caso em discussão, que apresentam dificuldades simbólicas e se apegam a sintomas que são expressos pelo corpo. Foram citados vários autores que estudaram esses casos: Peter Sifneos, que os estudou a partir da alexitimia; Pierre Marty, a partir do tipo de funcionamento mental deles, caracteristicamente pobre em fantasias (pensamento operatório); Peter Giovachini, a partir do self vazio (“blank self”) e Abram Eksterman, a partir do conceito de lacunas cognitivas, que descreve os vazios simbólicos da mente relacionados com experiências traumáticas não elaboradas. Todos observaram que a dificuldade simbólica produz uma fixação ao sintoma com um discurso praticamente monotemático, centrado no sintoma como uma idéia prevalente, e sem emoção, devido ao controle dos impulsos amorosos e agressivos, dando ao todo uma aparência de neurose obsessiva. Esses pacientes, com suas queixas, que não melhoram e cujo exame não revela nenhuma patologia orgânica, são verdadeiros desafios para as equipes assistenciais. José Lopes Ibor os descreveu como sendo “el  enfermo problema".

 

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