Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
14.08.2008 Dr. Abram Eksterman

Durante o acompanhamento psicológico de uma paciente internada para tratamento de siringomielia a terapeuta indicou que a acompanhante, filha da paciente de pouco mais de vinte anos, também fosse atendida pela Psicologia Médica por perceber uma grande tensão entre as duas, embora ambas se esforçassem para não demonstrar o quanto o convívio estava sendo difícil. Durante suas consultas, a acompanhante relatou ser portadora de talassemia desde a infância e sofrer de depressão há muitos anos, além de já ter tentado contra a própria vida por três vezes. Disse que sempre se sentiu o patinho feio e que desde garota tem sentimentos de menos valia e pouco interesse pela vida, ao contrário de seu irmão caçula, que sempre foi muito alegre e feliz, mas morreu em um desastre automobilístico há pouco menos de um ano. Contou ainda que sempre admirou muito esse seu irmão e nunca conseguiu ser como ele.  Também relatou grandes dificuldades no relacionamento com seu pai, de quem disse nunca ter recebido carinho e amor. Esse também foi o motivo da sua separação conjugal após três anos de casamento e é também sua queixa com seu atual namorado, que tem quase a idade de seu pai (disse gostar de se relacionar com homens bem mais velhos). Pouco antes da mãe se operar o relacionamento entre as duas se tornou mais claramente belicoso e ambas decidiram que seria melhor a filha ficar mais em casa. Dias depois, a mãe foi operada com sucesso, teve alta voltando para sua cidade natal.

Inicialmente foi ressaltado ser este um caso que evidencia o quanto o acompanhante pode ter um papel de coadjuvante terapêutico ou anti-terapêutico no tratamento dos pacientes. Neste caso, a acompanhante, por estar presa na trama edípica, mantinha uma relação ambivalente com a mãe, que poderia repercutir na relação da equipe com a paciente trazendo o risco de iatrogenias ou de afastamento da equipe. Com a abertura de um espaço de interlocução especializado, a agressividade presente na relação entre as duas, mas até então reprimida, se tornou mais evidente e pode ser administrada de uma maneira melhor por elas. Em seguida, foi discutida a possível relação entre o fato de ela ser portadora de uma doença infantil, que interfere muito nas atividades infantis e no desenvolvimento físico, seus sentimentos depressivos e o caráter fortemente erótico de todas as suas relações, pois é comum se observar a erotização excessiva como defensa diante de sentimentos depressivos profundos.

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