Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
03.07.2008 Dr. Decio Tenenbaum

Uma mulher de quase cinqüenta anos, casada, mãe de três filhos dos quais o primeiro morreu de desidratação recém nascido, foi internada com um eczema que teve inicio há alguns meses ao usar um brinco que ganhara de presente das irmãs quando voltava para o Rio encontrar a família após ter ido se tratar de depressão em sua cidade natal. O atendimento pela Psicologia Médica foi solicitado pela equipe da enfermaria porque ela dizia que tudo decorria do fato dela ter depressões. Contou ter sofrido quatro episódios depressivos: o primeiro, quando o marido, então ainda seu noivo, desistiu temporariamente de com ela casar; o segundo, após o nascimento do seu primeiro filho, quando não conseguiu cuidar dele e da casa sem o marido, que na época trabalhava em outro estado. A paciente disse ter melhorado quando o marido voltou para casa e foi este filho que morreu de desidratação. A terceira crise depressiva aconteceu quando trabalhava com o marido: desta vez não conseguiu levar adiante as tarefas laborativas. E a última ocorreu recentemente quando viu que a filha estava tendo problemas no trabalho e disso inferiu que também a filha era dada a ter depressões.

Também nos atendimentos da Psicologia Médica a paciente só se referia aos seus episódios depressivos, a eles sempre voltando para justificar todos os seus problemas físicos e pessoais, assim como suas dificuldades com a vida.

O primeiro tema a ser discutido foi a relação entre doenças orgânicas e dificuldades no processo de simbolização. Foi lembrado que isso vem sendo pensado há muitos anos a partir da idéia de que aquilo que não se expressa através de palavras extravasa, repercute, no corpo. Foi assim com a idéia de neurose atual que Freud formulou para as doenças mentais relacionadas com o desempenho orgânico, com o conceito de “pensamento operatório” que Pierre Marty desenvolveu para descrever um determinado tipo de funcionamento mental que seria acompanhado de fenômenos patológicos orgânicos e com a idéia de “alexitimia” que designa a incapacidade de expressar sentimentos e que Peter Sifneos utilizou para tentar compreender certos fenômenos psicossomáticos. Em nosso serviço, temos observado que a repercussão orgânica de certos problemas emocionais passa pelo mecanismo do estresse que, nas pessoas com dificuldades no processo de simbolização, é desencadeado pela angústia. Assim, por provocar angústia, aquilo que não consegue se expressar desencadeia o mecanismo do estresse, a partir do qual os pontos vulneráveis do organismo, por predisposição genética, problemas na regulação homeostática, deficiências imunológicas ou outros mais, podem ser atingidos dando origem a doenças somáticas.
Em seguida, foi salientado que a psicodinâmica da paciente girava em torno de uma importante dificuldade simbólica geradora da limitação que ela apresentava em integrar as experiências por ela mesma vividas e o uso que ela fazia do diagnóstico de depressão para se excluir de todas as relações e atividades e assim evitar o sofrimento e a angústia que costuma ser desencadeada nessas situações.

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