Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
12.06.2008 Dr. Giorgio Trotto
Uma mulher com menos de trinta anos, solteira, com queixa de cefaléia e hemiparesia esquerda, esta última conseqüente a um acidente vascular cerebral ocorrido há dois anos, foi internada para investigação etiológica. Os exames realizados apontaram a existência de um angioma venoso (cavernoma), cujo  tratamento deveria ser clínico com controle da pressão arterial e de outros possíveis fatores de risco para novo sangramento, já que a retirada cirúrgica do tumor envolvia risco considerável de seqüela motora. Mobilizada pela ideação suicida da paciente, e considerando-a deprimida, a equipe da enfermaria solicitou o acompanhamento da Psicologia Médica e da Psiquiatria. Filha de pai alcoólatra com problemas mentais e abandonada pela mãe, ela e os irmãos foram curatelados por diferentes famílias. Criada numa família onde sempre era lembrada que lá estava de favor, ao se aproximar da maioridade a “mãe” da paciente começou a dizer que ela iria perder o direito de viver naquela família. Aos vinte e um anos a paciente conseguiu se sustentar sozinha e saiu de casa. Alguns anos depois sofreu o AVC e há menos de um ano perdeu seu namorado em acidente automobilístico. Essas fatalidades confirmaram um pensamento antigo dela não ter direito a ser feliz na vida. Desde então pensa que deveria ter morrido também. Inicialmente revoltada com sua situação, com sua vida e com todos que convivem com ela, o comportamento da paciente mudou em duas semanas de uso de medicação antidepressiva prescrita pelo psiquiatra: tornou-se bem humorada e afável. A paciente saiu de alta para dar continuidade ao tratamento em regime ambulatorial sentindo-se muito bem.

Inicialmente, discutiu-se a indicação e os riscos do uso de medicação antidepressiva numa paciente que apresenta risco de sangramento cerebral. Em seguida, foram esclarecidos a diferença entre depressão e revolta frente a uma história de vida trágica, que era o estado psicológico inicial da paciente, e o efeito acobertador da medicação psiquiátrica frente a situação de vida da paciente, que torna mais difícil, e até inviável, a abordagem psicológica da paciente.  Finalmente, abordou-se com profundidade a psicodinâmica das pessoas excluídas, o objetivo da Psicologia Médica com este tipo de paciente e o papel terapêutico do estabelecimento de vínculos afetivos válidos com eles.

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