Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisora
03.04.2008 Dra. Anna Sanders Quental

Um rapaz de dezesseis anos, mas com aparência de dez, diabético desde os quatro anos e com várias internações, foi reinternado devido a mais uma descompensação da diabete, desta vez acompanhada por edema de membros inferiores. Filho de pai diabético que não se trata, tem um irmão mais velho que é saudável e não vive com os pais. Durante a internação foi constatado que o edema era devido à descompensação cardíaca de uma grave miocardite que comprometeu mais de 70% da função cardíaca, provavelmente adquirida durante um quadro infeccioso indevidamente tratado. O comprometimento cardíaco levou ao hipodesenvolvimento corporal e a uma insuficiência renal crônica. O paciente evita quase todas as atividades sociais, restringindo sua vida a ir à escola quando consegue, assistir televisão, ler revistas em quadrinhos e desenhar a partir do que lê. Disse que raramente se arrisca a fazer um desenho “de sua própria cabeça” porque quando o faz invariavelmente desenha o irmão. Seu quadro é grave, com sobrevida de alguns anos. Tem indicação para transplante, mas dificilmente conseguiria sobreviver devido à diabete.
Ao internar-se mostrou-se quase sem nenhuma iniciativa, muito dependente de sua mãe e isolando-se das pessoas. A mãe, muito ansiosa e preocupada com seu filho, não aceitou o acompanhamento psicológico que lhe foi oferecido. Inicialmente mostrou-se arredio no contato com a terapeuta e muito assustado com a evolução de sua doença, embora nada falasse sobre isso.
Após a alta, numa consulta de revisão, o paciente relatou haver decidido desenvolver sua habilidade de desenhar, já conseguindo desenhar “de sua própria cabeça”; menos dependente da mãe para cuidar de sua diabete, já conseguia se aplicar insulina. O pai iniciou tratamento da diabete.

Inicialmente, foi discutida a possível influência positiva que a contratransferência da terapeuta teve sobre o paciente: muito mobilizada pela gravidade da situação clínica do paciente, a terapeuta não sucumbiu à tragicidade a vida do paciente, o que ampliou sua capacidade sublimatória e lhe infundiu a força necessária para desenvolver sua habilidade e dar algum sentido à sua vida.
Em seguida, abordou-se o relacionamento do paciente com sua mãe: o vínculo simbiótico existente entre ambos e o isolamento em que cada membro da família vive. Finalmente, foram debatidos alguns aspectos do acompanhamento psicológico da mãe do paciente: a resistência dela ao que lhe foi oferecido, a possibilidade dela estar assustada devido ao sentimento de culpa em relação ao filho, o possível papel preventivo em relação à futura perda do filho (profilaxia do possível luto patológico) e a indicação desse tipo de atendimento não ser feito pelo mesmo terapeuta do paciente. Foi assinalado ainda que o trabalho da Psicologia Médica efetuou uma mudança na relação equipe médica-paciente: ao perceber um maior amadurecimento do paciente, tornou-o responsável pelo seu tratamento e passou a conversar diretamente com ele sobre as prescrições, não mais usando a mãe como intermediária.

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