Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
06.03.2008 Dr. Decio Tenenbaum

Um homem de quase trinta anos, solteiro e morando com os pais e os irmãos, foi internado com um dos pés muito inchado e dolorido devido a um micetoma. Sua maneira de falar acelerada e o relato reiterado de suas aventuras denotavam ter vivido de uma maneira onipotente e narcísica. Para manter sua auto-imagem de herói, expressa várias vezes nos seus relatos, não procurou assistência médica quando notou os primeiros sintomas da doença. Só procurou tratamento quando já não mais conseguia deambular. No período inicial de sua internação esforçou-se bastante para não se abater e ainda fazia planos de voltar à vida de aventuras. Seu estado de ânimo sofreu uma mudança quando foi constatado que a infecção já havia atingido o osso (osteomielite) introduzindo a possibilidade de amputação da parte do membro inferior atingida. Começou a rever seu mito pessoal de ser um herói, expôs suas inseguranças e fragilidades. Saiu de alta para tratamento ambulatorial que vem seguindo regularmente e com melhora do quadro clínico.


A partir da gravidade do caso, tanto do ponto de vista do prognóstico clínico quanto psicodinâmico, observou-se que o funcionamento narcísico do paciente caracterizado por uma vida sem relações afetivas significativas engendrou uma carência crônica de afeto e uma sensação de vazio existencial que eram superadas pela onipotência. O objetivo do acompanhamento da Psicologia Médica foi focado na ampliação da consciência da doença e na adesão ao tratamento em face do risco do paciente não dar continuidade ao mesmo ou ter uma reação autodestrutiva em face da quebra abrupta de sua onipotência associada com sentimentos de culpa, ambos desencadeados pelo agravamento de sua doença até então negada.  Em seguida, foram assinalados os movimentos de afastamento do paciente em relação a seus objetos primários. Discutiu-se ainda a estreita relação existente entre doenças de pele e de certas mucosas, como a pulmonar e a intestinal, com os processos simbólicos. A alopecia, o vitiligo, a psoríase e o prurido têm estreita relação com o simbolismo erótico observado na histeria; a asma, o eczema e certas alterações gastrointestinais surgem em crianças com separações longas e precoces dos genitores.

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