Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisora
22.11.2007 Dra. Anna Sanders Quental
Uma mulher de pouco mais de cinqüenta anos foi internada com um quadro grave hipertensão arterial, já com comprometimento ocular e renal. Veio proveniente de outro hospital aonde vinha fazendo acompanhamento ambulatorial há dez anos e era considerada refratária às medicações, pois seu quadro clínico vinha piorando ao longo do tratamento: nos últimos cinco anos sofreu três infartos do miocárdio e um acidente vascular cerebral. Ao ser internada, sua PA estava em 290x140 mmHg, foi medicada de emergência e apresentou uma queda abrupta da pressão arterial com certo risco de vida, o que levou a equipe a suspeitar que a paciente não vinha fazendo uso da medicação que lhe era prescrita no outro hospital.
No acompanhamento pela Psicologia Médica, a paciente se mostrou uma pessoa muito preocupada com a arrumação e a limpeza de sua casa, completamente voltada para as tarefas de casa e sem nenhum outro tipo interesse. Ao mesmo tempo, sentia-se sobrecarregada pelo marido e pelos filhos, como se fosse tratada como uma empregada doméstica. Além disso, relatou um conflito com sua nora, a quem responsabilizava por seus problemas de saúde e considerava má por freqüentar terreiros de macumba. Foi confirmado que a paciente nunca seguiu as orientações médicas e só usava a medicação quando apresentava algum tipo de mal estar. Após a alta, a paciente tem sido acompanhada ambulatorialmente e, pela primeira vez, tem seguido as orientações médicas e, com isso, sua pressão arterial tem se mantido dentro dos limites normais.

A discussão foi iniciada com a apreciação dos aspectos narcísicos e obsessivo-compulsivos da personalidade da paciente, com seus mecanismos de negação (LINK) da doença, projeção da agressividade, deslocamento do afeto, escrupulosidade e preocupação excessiva com limpeza.

Em seguida, foi abordada a indução iatrogênica exercida pela paciente nas equipes do primeiro hospital, onde estava sendo considerada fora de possibilidades terapêuticas por nunca ter informado não usar a medicação, e também da enfermaria da Santa Casa, aonde quase conseguiu fazer a equipe médica causar a sua morte ao não informar que não estava usando medicação. Este tipo de indução iatrogênica por parte do paciente foi chamada de Síndrome de Eutanásia por Abram Eksterman. Neste caso em discussão, o quadro psicodinâmico (LINK) era mobilizado por uma culpa inconsciente relacionada a impulsos edípicos não elaborados pela paciente em relação ao filho casado e que se expressavam através do conflito da paciente com sua nora.

O trabalho desenvolvido pela Psicologia Médica possibilitou ampliação da consciência de doença da paciente e a adesão dela ao tratamento.

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