Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
08.11.2007 Dr. Abram Eksterman

Uma mulher de quase quarenta anos foi internada com dores abdominais com irradiação para a região lombar de início há poucos meses, logo após ter-se submetido à cirurgia para correção de varizes nos membros inferiores. Exames revelaram apenas a existência de um edema no pâncreas e a paciente foi internada para elucidação diagnóstica, com os diagnósticos iniciais de pancreatite e de varizes pélvicas (do ovário).
A relação que se estabeleceu entre a entre a equipe assistencial e a paciente era de desconfiança: alguns membros da equipe não acreditavam nas queixas álgicas da paciente porque, para eles, o comportamento dela na enfermaria não se coadunava com o de uma pessoa que estaria sentindo fortes dores. O mesmo se passava com os familiares e o marido da paciente. Mas com a psicóloga algo diferente ocorreu, pois logo no primeiro atendimento a paciente revelou estar passando por uma importante crise conjugal em decorrência do afastamento mútuo do casal: o marido, muito ciumento, se queixa que ela esconde alguma coisa dele e ela sente-se muito insatisfeita com o comportamento calado e pouco afetivo dele. Logo em seguida relatou, pela primeira vez em sua vida, que foi violentada pelo pai, alcoolizado e armado, quando com dezoito anos. Na época tinha um namorado que a deixou quando notou a gravidez e até hoje não sabe quem é o pai de sua filha. Aos onze anos o avô a salvou de uma situação de violência sexual provocada pelo tio. O relacionamento da paciente com o marido e com a equipe sofreu uma nítida melhora com o acompanhamento da Psicologia Médica e a paciente continua internada, ainda em pesquisa diagnóstica.

A discussão foi iniciada assinalando-se ser este mais um caso em que fica evidente a inter-relação entre crise existencial e adoecimento. Como a maioria das pessoas que foram vítimas de violência sexual, a paciente também não conseguia deixar ninguém se aproximar dela (o que provocava o ciúme do marido e a desconfiança dos familiares e da equipe) e cobrava das pessoas atenção e dedicação na tentativa inconsciente de compensar a agressão sofrida. A experiência de vínculo da paciente estava comprometida tanto pela não elaboração da experiência traumática como também pelo sentimento inconsciente de culpa. A primeira a deixou com medo de todos e o segundo, que decorre dos desejos edípicos inconscientes, a deixou com medo de se aproximar (de seduzir a todos como imagina ter seduzido o tio e o pai). O fato de não procurar tirar a limpo a paternidade de sua filha fala a favor do desejo edípico inconsciente de manter a ilusão de a mesma ser filha do seu pai, o que fortalece o sentimento inconsciente de culpa. Este sentimento, por trazer o risco de desencadear a busca de expiação, por vezes através de um tipo particular de indução iatrogênica conhecida como síndrome de eutanásia deve ser o foco da atenção da Psicologia Médica.

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