Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisora
04.10.2007 Dra. Anna Sanders Quental
Um homem de pouco mais de quarenta anos, casado e pai de dois filhos, foi internado para tratamento cirúrgico de síndrome de Arnold Chiari. Filho de pais separados porque o pai, usuário de bebidas alcoólicas, não suportou as reclamações da esposa. Como o pai, ele também foi usuário de bebidas alcoólicas e também tinha insatisfações conjugais, tanto que por duas ou três vezes quase se separou. A última briga do casal, na qual disse mais uma vez que iria se separar ocorreu pouco antes dele se internar. A relação do paciente para com a psicóloga teve dois momentos opostos: antes da cirurgia foi reticente e praticamente se restringiu a responder as perguntas; depois da cirurgia mostrou-se comunicativo, contou sua história revelando suas culpas. A cirurgia teve sucesso e o paciente saiu de alta em boas condições.

   

A discussão girou em torno da técnica a ser empregada no preparo psicológico pré-operatório. Falou-se da importância da técnica da anamnese não dirigida na obtenção da história da pessoa, instrumento fundamental para a criação do espaço de segurança necessário para o desenvolvimento do vínculo terapêutico no qual poderão ser trabalhadas as ansiedades persecutórias do paciente em relação à cirurgia, a melhor maneira de diminuir o estresse pré, per e pós-operatório. É sabido que o medo da morte desencadeado pela cirurgia mobiliza dramas pessoais não elaborados a partir dos quais se organiza a psicodinâmica da busca da expiação tão freqüente no pré-operatório. No caso em discussão tratava-se do drama edípico evidenciado pela presença dominadora do fantasma paterno na vida mental do paciente. Por vezes o sentimento de culpa é tão avassalador que o paciente só consegue abordar o assunto após a cirurgia, como se o fato de ter sobrevivido significasse uma prova do perdão divino.

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