Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
27.09.2007 Dr. Sergio Costa Almeida

Um homem de pouco mais de trinta anos, HIV+, foi internado com queixa de fraqueza decorrente de emagrecimento de quinze quilos nos últimos meses, intensa diarréia com inúmeras evacuações diárias, sangramento anal e candidíase orofaríngea. Também vinha fazendo uso regular e abusivo de bebidas alcoólicas. Durante seu acompanhamento por um dos membros da equipe de Psicologia Médica associada à enfermaria contou ser esta sua primeira internação e que sabia estar contaminado com o vírus da AIDS há pouco mais de vinte dias. Contou ainda que apesar de ter todas as informações necessárias para saber como se proteger desta doença nunca usou preservativo. Através de interconsultas com a médica assistente a psicóloga soube que a equipe estava estranhando a forma tão grave de início da doença e o fato do paciente ter contado uma história diferente sobre sua contaminação para cada membro da equipe. Apesar de todos os esforços da equipe, o tratamento não conseguiu reverter o quadro infeccioso e consumptivo e o paciente veio a falecer com pouco mais de um mês de internação. Antes de morrer o paciente mencionou o fato de carregar um segredo há muitos anos, e que a equipe suspeitava ser sua homossexualidade. A psicóloga que o atendia desenvolveu um quadro diarréico após receber a notícia do falecimento do seu paciente.

         

Inicialmente, a discussão abordou algumas das dificuldades contratransferenciais em se atender pacientes terminais. Foi assinalado que não raramente a identificação do terapeuta com o paciente pode funcionar como um processo defensivo contra a dor decorrente da perda do paciente, podendo engendrar um quadro de luto patológico no terapeuta por inibir o processo de luto. Em seguida, discutiu-se o tema do segredo e o mecanismo defensivo de cisão do ego através do qual o paciente manteve sua vida dupla.