Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
23.08.2007 Dr. Giorgio Trotto

Um homem de pouco mais de quarenta anos e portador de Mal de Parkinson foi internado para reajuste da medicação. Doente há mais de dez anos, o motivo da piora e agravamento de sua doença foi o uso excessivo da medicação prescrita para tentar ficar completamente livre dos sintomas. Sua aparência descuidada e seu desânimo chamavam a atenção.

Primeiro dos quatro filhos e arrimo de família desde muito cedo, começou a trabalhar aos oito anos, três anos após o pai abandonar a família. Ainda jovem, passou por sérias dificuldades que o obrigaram a viver na rua por algum tempo e o deixaram muito ressentido com seu pai a ponto de sentir-se mal por ter o mesmo nome que ele. Por outro lado, nunca foi chamado por este nome pela mãe, que sempre o chamou pelo nome que queria dar a ele quando nasceu e ele próprio sempre usou um terceiro nome para se apresentar. Por ser muito tímido, fazia uso freqüente de bebidas alcoólicas e, por vergonha, sempre mentiu sobre sua real situação de vida para poder namorar. Em pouco tempo precisava desaparecer para não ser desmascarado. Nunca acreditou que uma mulher pudesse gostar dele do jeito que ele era e desde muito cedo acha que todas as mulheres são interesseiras. Achava que sua doença era uma forma de castigo por suas mentiras. Ficou bastante ansioso com sua alta, com receio de não conseguir seguir adequadamente o tratamento em casa e acabar morrendo.

  

Na discussão foram abordados alguns pontos importantes do tratamento de pacientes portadores de doença crônica. O primeiro foi a importância do psicólogo se inteirar das características da doença do seu paciente para assim poder entender as vicissitudes da evolução do paciente e do tratamento. Depois, foi assinalada a presença freqüente de retração narcísica e de sentimentos de desistência que impõem como objetivo terapêutico com estes pacientes a necessidade de trazê-los de volta para a vida. Foi também ressaltada a importância do esmero técnico para se estabelecer um diálogo clínico onde o terapeuta não se revele demasiada e desnecessariamente, mas também não fique distante a ponto de impedir a criação do vínculo terapêutico.

Finalmente foram dissecados os aspectos psicodinâmicos mais relevantes do caso: o sentimento de menos valia, a desconfiança e a frágil identidade decorrentes de uma falha básica na experiência diádica expressa pelo paciente através do relato da insatisfação da mãe com ele desde o seu nascimento.