Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisora
12.07.2007 Dr. Abram Eksterman

Uma senhora de mais de oitenta anos, solteira, foi internada para investigação diagnóstica de um quadro de constipação crônica. Sempre bem disposta, asseada e arrumada, contou que sua doença começou antes de completar trinta anos, depois de se submeter a uma apendicectomia. Oriunda da região norte do país, veio para o Rio há pouco mais de vinte anos, após a morte da mãe. Seus irmãos já tinham saído de casa e foi a única a ficar para cuidar da mãe, pois era a filha mais apegada. A mãe também era muito ligada à paciente: ficava triste quando esta saía e pedia sempre para que ela não demorasse. Sempre dedicada ao trabalho e à mãe, a paciente acabou não casando. Embora tivesse consciência das limitações e perdas que o cuidado dedicado à mãe trouxe para sua vida, não esboçou nenhuma crítica, lamento ou mesmo frustração, durante os atendimentos. Pelo contrário, estava sempre se esforçando em ver o melhor das coisas. Nada além de uma doença diverticular do cólon foi encontrado nos exames realizados e a paciente recebeu alta para dar continuidade ao tratamento em regime ambulatorial.

 

A discussão foi iniciada pela recuperação histórica do surgimento da Medicina Psicossomática a partir da psicanálise, quando este tipo de patologia funcional era chamado de organoneurose e a linguagem corporal começou a ser estudada. Na época, o objetivo do tratamento psicanalítico era a diminuição das defesas psicológicas, pois se acreditava que a facilitação da expressão de material reprimido levaria à diminuição/abolição da sintomatologia corporal. Em relação à paciente, pode ser observada uma dinâmica mental, na qual predominava o erotismo anal, com uma clara relação entre as perdas da paciente a constipação intestinal, e a repressão da vida instintiva, tanto da hostilidade quanto da sexualidade. Mas, como o objetivo da Psicologia Médica difere do objetivo psicanalítico, no caso em questão o foco do atendimento foi proporcionar à paciente um espaço de elaboração da perda da mãe, luto ainda não concluído, e que estava dando um colorido depressivo à sua vida, potencializando todas as demais perdas decorrentes do próprio processo de viver.