Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
18.01.2007 Dr. Abram Eksterman

Um homem de pouco mais de 60 anos, casado e com filhos, operado com sucesso e considerado curado de um câncer de intestino há 7 anos, procurou espontaneamente a enfermaria querendo ser internado e queixando-se de emagrecimento, dores abdominais e lombares. Ficou internado por 2 meses, foi submetido a uma série de exames e nada encontrado que justificasse suas queixas e internação. Ficou internado para recuperação ponderal e o acompanhamento pela equipe de Psicologia Médica associada à enfermaria foi solicitado porque o paciente insistia em ter uma doença orgânica e não demonstrava nenhuma vontade em sair de alta, embora se queixasse muito da qualidade da alimentação e não se alimentasse nada bem, razão da internação. Após 1 mês de alta, voltou a procurar espontaneamente a enfermaria para ser reinternado e o conseguiu após grande insistência. Suas queixas eram as mesmas e seu comportamento na enfermaria foi o mesmo: queixava-se do abandono de seus familiares e da alimentação, que quase não conseguia ingerir. Apesar das mudanças na qualidade dos alimentos e na procedência da alimentação, o paciente continuou se alimentando cada vez pior. Por vezes provocava vômitos após conseguir ingerir uma parte de uma refeição e seu quadro clínico de desnutrição foi se agravando, embora nada fosse encontrado em seus exames.
A
única pessoa que o visitava com regularidade era uma de suas filhas, que sentia-se muito mal com a situação do pai: desempregado há 2 anos, vivendo com seus familiares, embora maritalmente separado de sua esposa vários anos e quase sem falar com os filhos. Vivia praticamente isolado e com muitas queixas de todos. O paciente sempre foi pessoa de pouquíssimos amigos e distante do convívio familiar. Pouco se envolvia com a dinâmica familiar por acreditar que o manejo da casa e a criação dos filhos eram funções da esposa. Logo após casar foi trabalhar em uma cidade bem distante de onde a família residia e a eles se reuniu quando foi despedido muitos anos depois. O próprio paciente dizia que não havia conseguido se recuperar desta demissão. Pouco tempo depois afastou-se novamente dos familiares para cuidar da mãe enferma em outra cidade, que acabou falecendo 1ou 2 anos depois. Esta filha foi a única a acompanhar o agravamento do estado de saúde do pai e o fracasso da equipe de saúde em reverter a situação. O paciente acabou falecendo após quase 1 mês de internação.

A discussão se iniciou pelo diagnóstico psicodinâmico do quadro de desistência do paciente associado a uma reação resignada, iatrogênicamente induzida pelo paciente na equipe de saúde, configurando aquilo que Abram Eksterman chama de síndrome de eutanásia.
Em seguida, foi discutido o tipo de intervenção psicológica a ser empregada nestas situações: deve-se tentar estimular o paciente à vida ou enfrentar o desejo dele morrer, com seus aspectos agressivos e destrutivos dissimulados?
A
reunião foi encerrada com a discussão sobre a importância do diagnóstico fenomenológico e do uso associado de outros instrumentos terapêuticos como a medicação anti-depressiva e a eletroconvulsoterapia nos casos extremos.

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