Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
14.12.2006 Dr. Giorgio Trotto

Um homem de cinquenta anos , solteiro, foi internado para investigação diagnóstica de uma incapacidade de andar com início mais de três anos. Após quase um mês de internação, os exames complementares confirmaram a hipótese diagnóstica de polineuropatia sensitiva de membros inferiores, provavelmente por uso abusivo de bebidas alcoólicas. O paciente praticamente não recebeu nenhuma visita durante a internação e saiu de alta logo após receber o diagnóstico.
Seu pai saiu de casa levando o paciente e sua irmã quando ainda eram muito pequenos. Assim que pôde, fugiu da casa do pai para voltar a viver com sua mãe, que havia se casado novamente e tinha mais dois filhos. Apesar dos maus-tratos, dedicou sua vida à mãe. Desde muito cedo trabalhou, e não casou, para poder sustentá-la. Nunca estabeleceu nenhum relacionamento amoroso e, exceto por pequenos períodos motivados por trabalho, viveu sempre com a mãe, que faleceu por atropelamento há quinze anos. Mesmo achando que foi um bom filho, sentia-se culpado por não ter-se dedicado mais a ela e por não ter conseguido cuidar dela a ponto de evitar sua morte.

A apresentação deste caso clínico possibilitou a discussão sobre as motivações inconscientes deste tipo peculiar de relação interpessoal, na qual uma pessoa se dedica a outra, se esforça em agradá-la de diferentes maneiras, mesmo sendo por esta maltratado. Com contornos sado-masoquistas, foi observado que este tipo de dedicação é geralmente acompanhado por sentimentos contraditórios de culpa e de injustiça ao mesmo tempo, e que podem ser entendidos através da ambivalência de sentimentos inevitavelmente presente nestas relações. Psicodinamicamente, trata-se de uma pessoa que dedicou toda sua vida à fantasia de ser o homem de sua mãe.
Várias
dúvidas quanto ao diagnóstico e à relação do paciente com a sua doença e com a equipe, elementos fundamentais quanto ao prognóstico e objetivo terapêutico da Psicologia Médica em cada caso, não puderam ser respondidas.

retorna