Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
16.11.2006 Dr. Decio Tenenbaum

Uma mulher de quase 40 anos, em tratamento ambulatorial há quase um ano por sofrer de síndrome do intestino irritável, com um grave quadro diarrêico de várias evacuações líquidas por dia, há aproximadamente seis meses começou a apresentar queda de cabelo e foi-lhe diagnosticado alopécia areata. Há pouco mais de um mês veio encaminhada para tratamento psicoterápico. Vive com uma companheira mais de dez anos e seus sintomas orgânicos se iniciaram concomitantemente com o início da piora de sua relação amorosa.
na primeira sessão relatou fatos da sua vida que não havia contado a ninguém. Disse que foi dada em adoção quando tinha um ano e, criada como empregada doméstica em um ambiente de violência, chegou a ser trancada em um quarto escuro com ratos por ter se recusado a cumprir uma tarefa doméstica. Aos nove anos foi estuprada pelo próprio padrasto. Ao ser levada para conhecer a mãe biológica, soube que foi a única dos oito filhos a ser dada para adoção e passou a odiar sua mãe biológica. Desde o abuso  sexual não fala com o padrasto, a quem também odeia, e culpa a mãe adotiva por não tê-la defendido. Escutou dela insinuações de que teria provocado a situação por usar short em casa. É homossexual e nunca conseguiu se envolver com um homem.
Durante as sessões mostra-se sempre muito angustiada e, repetidamente, fala sobre o abuso e as violências que foi vítima. Tem idéias suicidas e chegou a comprar veneno de rato para se matar, o qual entregou para a terapeuta. Após as primeiras sessões apresentou uma melhora da sintomatologia intestinal e depois disso começou a faltar.
A paciente continua
em tratamento.

Após uma exposição sobre as afecções orgânicas da paciente feita pelo médico dermatologista presente à reunião, o exame da situação clínica foi iniciado. A discussão se iniciou com um acurado exame do grave quadro psicodinâmico apresentado pela paciente. Por conta das trágicas experiências que passou ainda precocemente em sua vida, a paciente não não teve como desenvolver uma relação diádica satisfatória como sua experiência edípica foi pervertida pelo do estupro que foi vítima. Acabou inconscientemente se identificando com ratos que devem ser exterminados por serem agentes de sujeira e podridão. Através da homossexualidade, a paciente parece ter conseguido encontrar um razoável equilíbrio emocional, o qual ficou ameaçado com a possibilidade do término da relação.
A
discussão foi encerrada após terem sido debatidas as possíveis estratégias terapêuticas nesta grave e difícil situação clínica. Além das questões transferenciais e contra-transferenciais presentes, a dificuldade clínica decorre também do limite estreito entre se conseguir ajudar a paciente a sentir-se legitimada em sua escolha homossexual e os possíveis efeitos patogênicos (através do aumento do estresse sobre seu frágil organismo) que a consciência plena de sua tragédia pessoal poderá trazer.

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