Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
26.10.2006 Dr. Sergio Costa Almeida

Um homem de quase 60 anos foi internado por estar comintestino preso e barriga inchada”. Apesar de todas as evidências de ser portador de cirrose hepática alcóolica, dizia ser apenas etilista social, sua ex-mulher, sim, era alcóolatra (sic). De temperamento difícil, sentia-se perseguido por quase todos e injustiçado, chegando a se igualar a Jesus na injustiça, perseguição e traição. Na enfermaria, teve constantes problemas e atritos com a enfermagem e com outros pacientes, sempre alegando estar sendo perseguido e injustiçado. Não recebia visitas de quase ninguém, embora ainda tivesse pai vivo e vários irmãos e irmãs. Vivia quase isolado em sua casa e lamentava muito a perda da mãe, a única pessoa que sentia que gostava dele e era por ele idealizada. A primeira reação à abordagem do membro da equipe de Psicologia Médica associada à enfermaria foi de surpresa e desconfiança, que aos poucos foi mudando ao ponto de chegar a dizer quesempre haverá uma cadeira aqui para você sentar e a gente conversar”. De fato, parecia que era a única pessoa com quem se sentia bem na enfermaria. Ainda sem ter o diagnóstico firmado, o paciente foi repentinamente transferido para outro hospital.

A discussão se inicou pelo reconhecimento da dificuldade em se atender uma pessoa cuja dinâmica mental era claramente paranóide, embora não psicótica: sentia-se  constantemente injustiçado e perseguido, enquanto que seu comportamento era dissimuladamente agressivo. Seu sentimento de injustiça se baseava na espectativa de amor e aceitação incondicional, enquanto que o sentimento persecutório era atribuído à inveja alheia por seu uma pessoa especial (semelhante a Jesus Cristo).
Foi levantada a
hipótese da alta repentina e precoce ter sido uma reação da equipe à maneira dele ser e foi ressaltada a importância do acompanhamento da Psicologia Médica ser o mais próximo possível do tratamento médico.
Foi
também assinalado que a cisão entre a transferência positiva para como a terapeuta e a transferência negativa para com os demais membros da equipe ser o padrão de relacionamento do paciente, pois assim era também com os pais: a mãe idealizada; o pai, o perseguidor.
A
reunião foi encerrada após uma longa exposição sobre possíveis estratégias terapêuticas para este tipo de paciente.

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