Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
24.08.2006 Dr. Sergio Costa Almeida
Um homem de quase 60 anos, em tratamento ambulatorial de AIDS, já com sarcoma de Kaposi e uma importante anemia, abordou um dos membros da equipe de Psicologia Médica associada à enfermaria. Muito angustiado desde que soube seu diagnóstico, solicitou atendimento ambulatorial, mas acabou sendo intertnado no dia seguinte. O paciente informou que começou a sentir os primeiros sintomas de sua doença há 1 ano e, desde então, vem fazendo uso da medicação sem nenhuma melhora.
Seu pai, homem muito mulherengo e homofóbico, abandonou a casa por outra mulher quando o paciente estava com 3 anos. Teve 20 filhos com várias mulheres, sendo 2 homossexuais como o paciente. Guarda muita raiva e ressentimento do pai, de quem soube do falecimento 2 anos depois do fato ter ocorrido. O único encontro que tiveram depois que o pai saiu de casa ocorreu por iniciativa paterna poucos meses antes do paciente "descobrir-se" homossexual, aos 19 anos. A mãe teve mais 2 casamentos, nos quais sempre foi maltratada. Assim que pôde, o paciente passou a sustentá-la. Seu maior sofrimento é pensar na mãe sem ele para ampará-la e sustentá-la.

A discussão foi iniciada com a constatação da presença marcante da angústia de morte durante todo o atendimento. Debateu-se a psicodinâmica do paciente, marcada por uma intensa identificação patológica com o pai: comporta-se como se fosse o pai, sustentando a mãe e, ao mesmo tempo, se torna o que o pai mais odeia. Contraindo a AIDS está caminhando para matar o pai que tanto odeia, mas com quem está inconscientemente identificado. Procedeu-se à distinção entre identificação saudável e patológica, ambas relacionadas como o processo de simbolização. Após ter sido discutido o objetivo da Psicologia Médica neste caso, qual seja interromper esta identificação mórbida através da migração do objeto interno do processo primário para o processo secundário de pensar, isto é, da fantasia para a consciência , a reunião foi encerrada com algumas questões sobre a relação do paciente com sua mãe.