Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
17.08.2006 Dr. Giorgio Trotto

Uma mulher de mais de 60 anos, viúva, foi internada após um desmaio, a partir do qual começou a notar formigamento e fraqueza em um de seus  braços. havia sofrido outros desmaios anteriormente, mas procurou médico desta vez porque notou a hemiparesia à direita. Foi a um ortopedista por sua própria conta e, mais tarde, por orientação de vizinhos, procurou um neurologista que a internou para avaliação diagnóstica. Na enfermaria, estava sempre isolada em seu leito, coberta até o pescoço e com o rosto coberto por uma lenço ou uma toalha de mão. Quando examinada, respondia ao ser interrogada, sempre com um sorriso nos lábios, dizendo sempre estar tudo bem, e recebia os comentários médicos de forma indiferente. Por outro lado, seu olhar era triste e cabisbaixo; seu humor tendia para o polo depressivo. Aos poucos, e sempre com uma certa má-vontade, falou de seus sofrimentos, que não eram poucos. Em pequena sentia-se preterida pelo pai, que mostrava nítida preferência por uma de suas irmãs. Aos 16 anos deixou a casa paterna para trabalhar, casou-se, teve um casal de filhos e pouco tempo depois separou-se porque o marido começou a beber e a agredi-la, física e verbalmente. Rompeu completamente os laços com o ex-marido mudando-se de cidade e criando os filhos sozinha, motivo de orgulho pessoal. Perdeu sua filha quase 15 anos e tornou-se envangélica aprendendo a não ter raiva, amor em seu coração (sic). Com muito emprenho escondia de si mesma a mágoa e o ressentimento que carregava em seu peito. Também não se dava conta do rancor que nutria quando não era atendida nas suas vontades e necessidades. A paciente recebeu alta logo que a equipe fechou o diagnóstico de doença de Parkinson.

Iniciou-se a discussão pela constatação de ser este mais um caso em que se evidencia a íntima relação entre um quadro depressivo e a repressão da agressividade. Se, fenomenologicamente, se trata de um caso de depressão, psicodinamicamente, a paciente apresentava um quadro de retração narcísica por rejeição do vínculo, tendo instituído mentalmente uma equação simbólica entre não ser a preferida, não ser atendida em suas necessidades e desejos, e ser abandonada. Uma vez estabelecida a diferença entre os diagnósticos fenomenológico e psicodinamico e as respectivas utilizações, a discussão se encaminhou para qual seria o objetivo terapêutico da Psicologia Médica com esta paciente. Como todo paciente portador de uma doença crônica, a paciente necessitará de acompanhamento pelo resto da vida. Portanto, precisa ser ajudada a organizar e desenvolver um vínculo permanente para poder aceitar um médico que a acompanhará pelo resto da vida. Neste sentido, a decisão sobre o melhor momento para a paciente ter alta deve levar em conta este aspecto psicológico e não apenas o orgânico.

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