Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
03.08.2006 Dr. Decio Tenenbaum

Um homem de pouco mais de 30 anos, casado há 5 anos, foi internado para tratamento de pênfigo vulgar. Único filho homem, não conheceu o pai e foi criado pelos avós, trabalhando com eles na lavoura desde pequeno enquanto a mãe trabalhava e vivia na cidade com suas irmãs. As primeiras lesões surgiram há ano e meio, logo depois de mudar-se para um apartamento maior, deixando de morar com sua sogra. Na época, iniciou tratamento ambulatorial com corticóide e sofria muito com os comentários dos amigos a cerca de suas lesões e do fato de estar engordando. As lesões continuaram se expandindo, mesmo com o tratamento, e ao dar entrada na enfermaria seu corpo estava todo tomado de feridas. Durante a internação mostrou-se, inicialmente, muito preocupado com sua doença e com medo de morrer. Esteve constantemente preocupado com o fato de sua esposa estar sozinha em casa e fez alusões a estar falhando com ela.

A discussão do caso foi inicada com uma explanação médica sobre pênfigo vulgar, doença dermatológica de origem auto-imune. Em seguida, foi lembrado que em nosso trabalho de oito anos na enfermaria de dermatologia temos encontrado, quase invariavelmente, uma íntima relação entre certas doenças dermatológicas - psoríase, vitiligo, prurido generalizado, eczema e alopécia - e dificuldades psicológicas na passagem da sexualidade infantil para a adulta. Este é o primeiro caso de pênfigo vulgar em que se pode observar a mesma psicodinâmica, pois o paciente adoeceu ao separar-se da sogra e poder passar a viver com a mulher. Também neste caso a crise biológica mostra uma intensa relação com a crise existencial pela qual o paciente está passando.
A
reunião foi encerrada fazendo-se uma avaliação do trabalho da Psicologia Médica com este paciente: conseguiu-se dissolver o medo que ele estava de morrer e aumentar sua confiança na equipe médica, mas quase nada foi conseguido em relação ao medo de perder a mulher. Em relação a este último tópico, debateu-se o sentido das dificuldades matrimoniais que o paciente fez referência em seus encontros com o membro da equipe de Psicologia Médica associada à enfermaria e, levando-se em conta o colorido erótico que o paciente imprimiu ao vínculo terapêutico, ponderou-se se ao mostrar receio em deixar a mulher sozinha e ao expressar estar falhando com a mulher, o paciente não estaria fazendo alusão a dificuldades sexuais com sua esposa.

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