Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
27.07.2006 Dr. Giorgio Trotto

Rapaz de 18 anos veio transferido de hospital público para tratamento de epilepsia. Foi necessário ser internado porque estava muito espoliado: emagrecido, desidratado, desnutrido e com várias escoriações pelo corpo. Foi trazido por tios que o tiraram de um quarto da casa de sua mãe onde vivia trancado há 3 anos, não era alimentado  regularmente e não recebia cuidado algum de higiene, urinando e evacuando onde vivia. Seus cabelos estavam crescidos e desgrenhados; as unhas, muito sujas e enormes. Mal articulava algumas palavras. Foi trancado pela mãe quando começou a apresentar crises convulsivas e, também pelos vizinhos, os tios souberam que o paciente, à guisa de exorcismo, era espancado pela mãe ao apresentar os episódios epilépticos. Perdeu o pai aos 3 anos de idade. Mais velho dos 3 filhos do primeiro casamento da mãe, possui 2 irmãos do padrasto. Foi retirado da escola pela mãe ainda pequeno quando apresentou difuldades no aprendizado. Na enfermaria passava a maior parte do tempo deitado em posição fetal e coberto dos pés à cabeça. Muito desconfiado, recusava com freqüência o cuidado da enfermagem e a medicação. Parecia um bicho acuado. Sua maneira de se comunicar era peculilar: parecia entender o que lhe era dito e empregava metáforas pouco comuns e com significados estritamente pessoais. Não recebeu nenhuma visita da mãe e dos irmãos. Submetido a uma série de exames para pesquisa neurológica, o resultado do eletroencefalograma foi típico de grande mal epiléptico e nada mais foi encontrado. Recebeu alta logo que as crises epilépticas foram controladas. Saiu com os tios com recomendação para acompanhamento ambulatorial.

A partir da lembrança de um dos casos mais famosos de crianças maltratadas, Kaspar Hauser (menino aparentando 15 anos encontrado em uma praça em Nuremberg em 1828, não sabia falar e não se comportava como humano), foram discutidas, inicialmente, as conseqüências psicológicas em crianças criadas sem contato humano. Em seguida, foi discutido como orientar paciente, familiares e equipe, (esta através de interconsultas) nos casos em que os aspectos sociais são desta monta. Finalmente, abordou-se os aspectos clínicos envolvidos no caso apresentado. Discutiu-se os possíveis diagnósticos diferenciais do paciente (surgimento de epilepsia em um caso de psicose infantil, surgimento de epilepsia em caso de oligofrenia infantil e psicose epiléptica) e os aspectos psicóticos do comportamento materno. Foram também debatidos os aspectos contratransferenciais desencadeados no contato com a miséria humana.

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