Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisora
20.07.2006 Dra. Anna Sanders Quental

Uma mulher de mais de 40 anos, casada e atualmente sem filhos, reinternou-se para nova cirurgia de hérnia de disco. Sua única queixa era uma forte e interminável lombociatalgia. Internou-se a primeira vez há 8 meses com a mesma queixa, foi operada e teve breve melhora da dor, que aos poucos foi voltando até chegar ao ponto em que estava antes da cirurgia. Embora demonstrasse vontade em se operar e expressasse esperança com a nova cirurgia, mostrava-se contrariada com inúmeras ocorrências da enfermaria. Se bem que algumas destas reclamações tivessem fundamento objetivo, causava a impressão de que sua contrariedade era maior do que seria esperado, às vezes chegando a ocupar grande parte de suas sessões com o membro da equipe de Psicologia Médica associada à enfermaria. Incidentes atrapalhando o atendimento foram freqüentes e observou-se uma certa dificuldade no manejo dos mesmos. A paciente relatou que suas dores lombares se iniciaram após o falecimento de sua única filha, que aos 6 anos apresentou uma grave neuropatia que a levou a um estado vegetativo por mais de 20 anos. Informou ainda que seu marido também passou a apresentar dores lombares, estando no momento licenciado de seu trabalho. Obteve remissão sintomática após a segunda cirurgia, mas 2 dias antes de voltar para casa as dores reiniciaram.

Debateu-se, inicialmente, a importância a as dificuldades no estabelecimento do lugar profissional, fundamental para o estabelecimento do vínculo terapêutico. Em seguida, foi comentado o uso, pela paciente, do mecanismo de identificação projetiva para expressar seus sentimentos e a ambivalência dela na relação com a filha doente e com a cirurgia. Depois, foi assinalado que este é mais um caso de luto patológico, no qual a relação existente entre a morte da filha e a dor lombar significa que a dor era a única lembrança que a paciente conseguia ter de sua filha, uma lembrança que certamente expressa a ambivalência presente na relação. Deixar de sentir a dor equivaleria a esquecer a filha, daí a impossibilidade de remissão do sintoma. A reunião foi encerrada lembrando-se o cuidado clínico que se deve ter com sintomas físicos e mentais que estão servindo como a única forma de manutenção de um vínculo com pessoa importante e necessária para a preservação da vida do paciente.

retorna