Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
08.06.2006 Dr. Decio Tenenbaum

Uma mulher de pouco mais de 40 anos internou-se por apresentar lesões avermelhadas nos membros inferiores, na face e nas costas, há mais de 7 anos, com períodos de melhora e piora. Durante o acompanhamento por um dos membros da equipe de Psicologia Médica do C.M.P. associada à enfermaria, contou ter tido um pai violento e revelou ter sido vítima de dois estupros no início da adolescência. Casou-se aos quinze anos e separou-se, com uma filha ainda bebê, após várias traições do marido. Casou-se novamente com um homem muito mais velho, com quem vive há mais de vinte anos, para que a filha pudesse ter um pai e ela tivesse alguém para ampará-la. Vive um momento de crise conjugal na qual tem muitas queixas do marido e, inconscientemente, deseja livrar-se dele por ver nele muitas semelhanças com seu próprio pai.  
Durante a internação, a equipe médica não conseguiu fechar um diagnóstico. Como suas lesões apresentavam aspectos inflamatórios crônicos, com algumas características de sarcoidose, ficou-se com esta hipótese. Permaneceu internada por três semanas e melhorou apenas com vitaminas e o acompanhamento psicológico, o qual está dando continuidade após a alta médica.

A discussão foi iniciada ressaltando-se ser este mais um caso de doença dermatológica intimamente relacionada com dificuldades na esfera da sexualidade. O caso mostra uma clara relação entre a revolta inconsciente da paciente com as figuras masculinas e o trauma psicológico que foi vítima. Ainda neste tema, foi observado que o próprio trauma psicológico na área da sexualidade pode servir como elemento defensivo contra os desejos e sentimentos inconscientes relacionados com a sexualidade. No caso em discussão, foi apontado que a lembrança do trauma também estaria funcionando como uma lembrança encobridora, que mantém inconsciente os desejos eróticos, potencialmente culpabilizantes, relacionados com a própria experiência traumática.
Em relação aos objetivos do trabalho da Psicologia Médica neste caso, foi apontado que além de ajudar a paciente a elaborar a situação traumática que viveu e seu problema conjugal, o atendimento serviu também para evitar que a hostilidade da paciente contra as figuras masculinas fosse transferida para a figura de seu médico, o que poderia ter uma influência deletéria para o tratamento.

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