Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisora
25.05.2006 Dra. Anna Sanders Quental

Uma mulher de 50 anos foi internada para retirada de um aneurisma localizado na carótida interna. Em seu acompanhamento por um dos membros da equipe de Psicologia Médica associada à enfermaria, já no primeiro atendimento, e quase que imediatamente, revelou-se desesperadamente aflita, negando, peremptoriamente, a possibilidade de vir a morrer na cirurgia. Em quase todos as consultas o tema girou em torno de sua morte, seja prepotentemente afirmando que não iria morrer, seja negociando que não poderia morrer porque tinha um filho ainda pequeno, seja porque tinha muita fé em Deus etc. Entremeando com seu desespero, contou não ter sido criada pelos pais. Foi criada por um casal de tios, em cuja casa trabalhava e era muito maltratada. Foi vítima de violência física, inclusive abuso sexual. Vive, há mais de 10 anos, com seu segundo marido, homem depressivo, com quem não se entende e não gosta de conviver. Tem um filho pequeno desse segundo casamento com quem também não se entende.
Após a cirurgia, realizada com sucesso, o quadro psicológico sofreu um agravamento. O desespero da paciente aumentou, surgiram episódios de desorganização mental, com alterações sensoperceptivas e do pensamento. Após mais de um mês de internação, a paciente recebeu a alta ainda se queixando de fortes dores de cabeça e com grande ansiedade: tinha medo de morrer em casa ou de fazer alguma besteira com ela ou com seu filho. Dias após a alta, o marido da paciente ligou para a enfermaria dizendo que a esposa não  estava nada bem, as dores de cabeça continuavam e ela havia tentado matar o filho pequeno, o qual foi levado para casa de familiares. A paciente foi levada à enfermaria onde foi medicada e liberada. 

A partir da constatação deste ser  mais um caso de síndrome de eutanásia, no qual o desejo inconsciente de morrer tinha uma relação direta com a biografia da paciente, discutiu-se o impacto que a violência sexual precoce costuma ter na sexualidade infantil e os reflexos desta situação, que costuma incluir fortes sentimentos inconscientes de culpa, no desenvolvimento psicológico da pessoa. A impossibilidade de elaboração destas experiências tem o efeito de fazer com que situações atuais sejam vividas sob a ótica do trauma passado. A paciente viveu um dos exames pós-operatórios como um estupro.
Ressaltou-se ainda a íntima relação que existe entre a intensidade dos mecanismos defensivos e a gravidade da situação reprimida por estes mecanismos.
Finalmente, discutiu-se se a desorganização mental que a paciente apresentou seria uma psicose sintomática decorrente de alterações orgânicas cerebrais pós-cirurgia ou se o agravamento do desespero e a desorganização mental da paciente decorreram do fato dela não ter morrido, que era o que ela inconscientemente buscava como solução para suas dificuldades.

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