Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
11.05.2006 Dr. Decio Tenenbaum

Uma mulher de 48 anos, casada e mãe de três filhos, foi internada para a retirada de um lipoma no ombro após quase um ano sendo tratada como portadora de um problema muscular. Já no início de seu acompanhamento por um membro da equipe de Psicologia Médica associada à enfermaria, mostrou sua firme suspeita de que a estariam enganando e que seu verdadeiro diagnóstico seria câncer, como sua mãe e sua sobrinha, que vieram a falecer logo depois que receberam o diagnóstico. A prevalência da idéia de ter câncer era marcante, atormentava bastante a paciente e criava uma urgência em ser operada para, assim, se livrar de sua suspeita. A equipe médico-cirúrgica nada sabia sobre essas suspeitas porque, nas visitas médicas, a paciente mostrava-se cooperativa e parecia entender tudo que lhe era informado. Foram feitas algumas interconsultas para esclarecimento da equipe médico-cirúrugica e, ao final de seis atendimentos, a paciente não mais desconfiava da equipe e pôde ser operada, inclusive com anestesia local.  

O primeiro tema a ser discutido foi a dinâmica que estaria na origem da idéia de ser portadora de câncer, como a mãe e a sobrinha, as quais faleceram desta doença. Inicialmente foi levantada a hipótese, baseada na teoria kleineana, de que a paciente estaria identificada com estes destinos em virtude de culpas inconscientes em relação a essas pessoas. A segunda hipótese, partindo do princípio de que situações difíceis costumam ser acompanhadas pelo surgimento de todas as situações semelhantes vividas no passado, não entende essa situação como fruto de  uma identificação culposa. A ameaça de morte vivida no presente teria desencadeado as experiências relacionadas com mortes não completamente elaboradas no passado. Trata-se, portanto, da emergência de uma perda não completamente elaborada, fenômeno presente nos casos de luto patológico. Essa diferença é importante porque define os rumos do acompanhamento psicológico. Seguindo-se a primeira hipótese, dever-se-ia  pesquisar possíveis culpas presentes nas relações da paciente com os entes queridos falecidos, enquanto que a segunda hipótese aponta para a necessidade de se ajudar a paciente a elaborar melhor o impacto que a perda dessas pessoas teve em sua vida mental. A primeira, levanta culpas; a segunda, alivia o enlutado. Em seguida, foi discutida a diferença entre luto normal e luto patológico.
Finalizando a reunião, discutiu-se o tema da psicogênese, isto é, se experiências mentais podem gerar efeitos físicos, no caso doenças somáticas. Embora voltada para este tema em seu primórdios, isto é, para a busca de possíveis causas psicológicas para certas doenças físicas, hoje em dia a pesquisa psicossomática está voltada para a influência que as experiências mentais podem ter sobre os sistemas de adaptação do organismo, mais conhecidos como mecanismo do estresse.

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