Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
30.03.2006 Dr. Decio Tenenbaum

Uma mulher de mais de 40 anos, em seu segundo casamento e com três filhos, procurou o Serviço de Dermatologia há alguns anos por apresentar um quadro de prurido generalizado. Foi encaminhada para acompanhamento ambulatorial concomitante pela Psicologia Médica quando ficou constatado que a coceira se intensificava quando ela se aborrecia. Está em tratamento psicológico há mais de 2 anos e, recentemente, precisou mudar de terapeuta devido à saída da psicóloga que a acompanhava.
A paciente foi mãe solteira aos 16 anos e seu filho foi criado pelos avós, de quem a paciente tem severas críticas. Seu primeiro casamento acabou após muitos anos de ofensas verbais, sempre em torno de sua idoneidade moral e de sua sexualidade, e agressões físicas. Ao sair de casa foi proibida de criar seus dois outros filhos, com os quais só voltou a ter contato agora, passados mais de 15 anos. Seu filho mais velho cumpre pena por assalto e sua filha vai ser mãe solteira também aos 16 anos. Suas principais queixas são: ter vindo de uma família “toda errada”, onde a violência e o alcoolismo estão presentes, e não conseguir se sentir amada por ninguém. Seu atual marido lhe é infiel e constantemente lhe ofende, também em relação à sua idoneidade moral e sexualidade. Sente-se triste, deprimida ao notar estar presa na mesma situação do seu casamento anterior, e humilhada com as ofensas e com o comportamento sexual, promíscuo e bissexual, do marido. Apesar de querer, não consegue se separar.
A paciente associa o início de sua sintomatologia à prisão do filho. Atualmente, ocorre uma exacerbação da coceira sempre que sabe sobre as traições do marido.

A discussão se iniciou ressaltando-se ser este mais um caso em que se observa a relação entre sintoma dermatológico e problemas na esfera da sexualidade. Foi lembrado que o prurido generalizado, o eczema, o vitiligo, a alopécia e a psoríase são as únicas doenças nas quais se pode falar ainda hoje, e com segurança, de uma etiologia psicológica de sintomas orgânicos. A partir da constatação da presença constante de situações triangulares, com brigas, traições e sexo, na vida da paciente, juntamente com suas associações entre violência e sexo, levantou-se a possibilidade dela ter sido vítima de abuso sexual na infância e apontou-se a diferença entre trauma psicológico real e fantasias traumáticas sobre a realidade.
A reunião foi encerrada após discutir-se o objetivo terapêutico de ajudar a paciente a elaborar a cena sexual infantil, que vem se repetindo constantemente em sua vida. Foram discutidas as três maneiras mais comuns da mente tentar integrar uma experiência vivida à vida mental: através da consciência sobre a experiência, pela reencenação da experiência e através de meios culturais (livros, teatro, cinema, televisão etc.).

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