Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
01.12.2005 Dr. Giorgio Trotto

Uma paciente de quase 40 anos, portadora de esclerose múltipla, doença neurológica crônica, incapacitante e de evolução fatal, vem sendo acompanhada desde sua primeira internação há quase dois anos. A doença teve início três anos antes, com perda súbita e parcial da visão e perda parcial da locomoção. Em sua primeira internação, a paciente mostrou-se otimista e, por vezes, excessivamente otimista, quase não conseguindo lidar com as mudanças que estavam acontecendo em sua vida a partir do seu adoecimento. Foi reinternada dois meses depois devido a piora de seu quadro clínico: perdeu a força dos membros inferiores e superiores, quase não mais conseguindo movê-los. Seu estado de saúde havia piorado drásticamente, ficou completamente dependente de ajuda externa e deprimiu-se. A partir de uma interconsulta, foi autorizado que a paciente recebesse a visita de seus familiares (pais, marido e filhos) a qualquer hora e que pudesse também receber alimentação e roupas de casa. Três meses depois, seu quadro clínico sofreu nova piora: a paciente perdeu quase completamente a visão, passando a enxergar apenas vultos, perdeu completamente o movimento dos membros, ficando paralisada do pescoço para baixo e também perdeu o controle dos esfíncteres. Estava desanimada e muito triste com o pensamento de não poder ver a filha caçula, de 5 anos, crescer. Pela primeira vez falou em morte e contou que em casa começou a ditar suas receitas culinárias para a filha. Quatro meses depois, a paciente teve duas internações bem curtas para tratamento de escaras de decúbito e tratamento de importante quadro infeccioso. Seis meses depois, a paciente teve nova internação. Seu estado de saúde era bastante precário devido a persistência do quadro infeccioso. Bastante desesperançada, a paciente perguntou à sua terapeuta se poderia ditar uma carta de despedida para a filha onde ela poderia falar para a filha sobre crescer, se tornar mulher, casar e ter filhos.

A discussão foi iniciada ressaltando-se a importante função terapêutica de acompanhar pacientes em situações desesperadoras sem se desesperar. Nessas situações, não raramente, a equipe de saúde costuma se retirar. Em seguida, detalhou-se a importância de se ajudar quem parte a encontrar maneiras de permanecer na lembrança de quem fica (no caso, as receitas e a carta de despedida) como forma de diminuir a solidão do momento e amenizar a angústia de morte. Afirmou-se que o futuro dos pacientes terminais está nas lembranças de quem fica. Em seguida, foi questionado se a atitude inicial da paciente foi maníaca ou esperançosa. Finalmente, foi discutido o limite da atuação da Psicologia Médica. Nesses casos, deve-se ir até onde não se fizer mal ao paciente. Empurrar a realidade à força para o paciente, impondo uma maior consciência da morte, seria iatrogênico. Como fez a terapeuta, deve-se reforçar os vínculos do paciente.

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