Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisora
17.11.2005 Dra. Anna Sanders Quental

Uma mulher de 42 anos, casada e mãe de 2 filhos, foi internada para a retirada cirúrgica de um tumor benigno localizado no cérebro. Ao chegar para o primeiro atendimento, a psicóloga encontrou a paciente deitada em seu leito e ladeada por uma boneca. Imediatamente, a paciente explicou que a boneca era de sua filha e que a trouxera para se sentir perto dos filhos. Em seguida, disse estar muito nervosa, com medo da cirurgia e contou que perdeu um irmão também de tumor cerebral (hematoma intracraniano decorrente de um acidente). Sua irmã mais velha morreu de pneumonia aos 16 anos e, pouco tempo depois, o menino que cuidava faleceu de leucemia também aos 16 anos. Seu pai morreu de derrame cerebral há 11 anos. A mãe da paciente mantém intocável, arrumado com todas as bonecas, o quarto da filha falecida.
No pós-operatório imediato, a paciente apresentou um quadro de desorganização mental decorrente da manipulação cirúrgica do lobo frontal. A agitação psicomotora e as idéias deliróides de que seria morta pelos médicos que a operaram tiveram uma breve duração e, em poucos dias, a paciente saiu do CTI. Ela recebeu alta para acompanhamento ambulatorial uma semana depois.

Iniciou-se a discussão pelo intenso medo que a paciente estava de morrer durante o ato cirúrgico, possivelmente estimulado pela dificuldade de elaborar suas próprias perdas, o que ficou evidente em dois momentos: a partir da presença da boneca da filha em sua cama, numa identificação dela com a maneira da mãe lidar com a perda da filha e no episódio de desorganização mental no qual a paciente sentia-se no lugar dos mortos  (CTI) e prestes a ser morta. A simbologia da boneca da paciente foi discutida com profundidade e mais dois aspectos foram assinalados: a busca de amparo através da boneca e o uso da boneca como um fetiche dos filhos, de quem a paciente não conseguia sentir-se próxima e, portanto, culpada e merecedora do castigo de ser morta.
A reunião foi encerrada com a discussão sobre o foco do atendimento da Psicologa Médica: qual seria a melhor maneira de ajudar a paciente sentir-se mais próxima dos filhos, diminuindo assim suas culpas e, conseqüentemente, a necessidade de castigo, o que diminuiria a medo de morrer na cirurgia.

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