Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
06.10.2005 Dr. Decio Tenenbaum

Uma mulher, solteira, com 28 anos, veio de outro hospital com o diagnóstico de dermatite herpetiforme, doença dermatológica relacionada com uma dificuldade na absorção de glúten e caracterizada por intenso prurido. Foi-lhe solicitado atendimento pela equipe de Psicologia Médica devido à suspeita de que seu quadro clínico talvez decorresse de auto-mutilação, uma vez que as lesões eram por demais extensas. A paciente aceitou prontamente o acompanhamento e, em seus atendimentos, falou, inicialmente, de sua briga com seu pai alcoólatra, a quem responsabiliza até hoje pela morte da mãe, ocorrida há 6 anos, e, para a paciente, decorrente de desgosto pela vida que levava, muito embora a mãe tivesse sofrido dois acidentes vasculares cerebrais. Aos 11 anos a pasciente tentou contra a própria vida ingerindo vários comprimidos após ter sido maltratada (rejeitada e humilhada) pelo pai. Disse que sempre foi envergonhada e calada, sentindo-se inferior às outras pessoas. Após a morte da mãe passou a morar sozinha porque o pai casou-se novamente, constituindo nova família, e sua irmã caçula também casou. Muito envergonhada, contou que desde então trabalha para se sustentar e, no trabalho, conheceu um homem casado a quem se entregou de tal forma que chegou a desviar dinheiro da empresa para ele. Não conseguiu contar isso para ninguém e passou a sentir-se só no mundo. Foi nessa circunstância que sua doença apareceu. Com poucos atendimentos (6), a paciente apresentou uma significativa remissão sintomatológica e uma mudança em seu estado emocional. Conseguiu contar sua situação para uma amiga do trabalho, a qual ofereceu ajuda financeira para cobrir o desfalque. Sentia-se pronta também para contar para o pai com a intenção de que este pudesse ajudá-la a cobrar a dívida. Saiu de alta para acompanhamento ambulatorial quase sem nenhuma lesão e sem ter sido necessário uma dieta isenta de glúten.

A discussão foi iniciada ressaltando-se o fato de ser este mais um  caso em que observa-se a ocorrência de uma doença dermatológica caracterizada por intenso prurido e o desabrochar traumático da sexualidade. Em seguida, foi discutido o trabalho de elaboração desenvolvido com a paciente a respeito das três situações traumáticas da vida dela: a relação dela com o pai, a perda da mãe e o início da vida sexual, na qual estavam presentes elementos de repetição da vida dos pais (submissão e maus tratos). Finalmente, discutiu-se os aspectos agressivos da paciente e os limites entre a Psicanálise e a Psicologia Médica.

 

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