Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
01.09.2005 Dr. Giorgio Trotto

Uma mulher de 39 anos, casada, veio encaminhada de outro hospital investigar “crises” de desmaio. O exame clínico e os exames complementares (de imagem e eletreoencefalograma) não evidenciaram nenhum sinal de comicialidade. Foi encaminhada para tratamento psicológico em regime ambulatorial.
Filha caçula de mãe alcoólatra, sofreu maus tratos físicos e psicológicos desde muito pequena. Perdeu o pai (cancer) aos 8 anos, quando, então, o uso de bebidas alcoólicas e os maus tratos da mãe pioraram. Iniciou vida sexual muito cedo (8 anos), sempre acompanhada de violência e outros tipos de perversões. Sempre foi muito agressiva e impulsiva. Há aproximadamente 1 ano, junto com o adoecimento de sua mãe (demência alcoólica), começou a apresentar episódios de desmaios e iniciou tratamento com medicação anti-convulsivante sem sucesso. Depois que começou a freqüentar uma igreja evangélica conseguiu controlar melhor seu comportamento agressivo-impulsivo.

Iniciou-se a discussão pelos diagnósticos diferenciais entre crise epiléptica e crise conversiva, epilepsia e histeria. Examinou-se detidamente as características psicopatológicas e psicodinâmicas da paciente chegando-se à conclusão de não ser um simples caso de histeria, na medida em que a atividade sexual sempre esteve contaminada por perversões e os valores éticos e morais não foram devidamente construídos.
A discussão encaminhou-se para a condução do tratamento psicológico deste tipo de paciente em um ambulatorio de atendimento de massa. Discutiu-se se o tratamento  dessa paciente deveria seguir o parâmetro psicanalítico ou se o objetivo do mesmo deveria se limitar à cura da sintomatologia que levou à procura do atendimento em virtude do risco de cronificação que tratamentos longos apresentam e dos limites assistenciais presentes na instituição. Utilizando-se a compreensão psicodinâmica, pode-se entender que a identificação inconsciente da paciente com a mãe apresenta um duplo viés:
- O surgimento da sintomatologia denuncia a dificuldade da paciente elaborar a perda da mãe, caracterizando o início de um quadro de luto patológico, que sabidamente se relaciona com a perda de pessoas com as quais há presença de conflitos reprimidos, e cuja defesa é a identificação com o objeto que está sendo perdido;
- As crises de desmaio da paciente poderiam ser entendidas como encenações de pequenas mortes, o que parece corresponder ao desejo da mãe em relação a ela: a paciente não deveria ter nascido, portanto deveria morrer.
Assim, através da diminuição da identificação da paciente com a mãe poderia-se alcançar a cura sintomatológica.

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