Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
04.08.2005 Dr. Decio Tenenbaum

Uma mulher de quase quarenta anos, casada e mãe de dois filhos, internou-se para submeter-se a uma tireoidectomia parcial para corrigir um bócio multinodular, acompanhado de hipotireoidismo. Pessoa cautelosa e reservada, logo evidenciou carregar um forte sentimento de culpa que a fazia sentir-se constantemente ameaçada de morte. Chegou à enfermaria com medo de morrer devido a um diagnóstico de câncer, que contou ter recebido já há algum tempo e que não se confirmou com os exames complementares. Passou a temer morrer com a anestesia e só se acalmou depois de contar que aos 14 anos teve um “amor bandido” com seu tio, que ao ser descoberto causou a separação do casal. Desde então sente-se muito culpada pelo destino de sua tia, que se tornou alcoólatra, e pensa ininterruptamente em morrer. A paciente teve ainda duas consultas antes da cirugia, nas quais, com a ajuda da psicóloga, pôde começar a elaborar a situação. A paciente foi operada com sucesso e demonstrou interesse em continuar o acompanhamento psicológico após a alta. 

Discutiu-se inicialmente o impacto que relatos como o desta paciente causam em quem os escuta. Diferenciando-se da maioria dos relatos de incesto, neste não havia o tom de vitimização. Não houve violência e nem vítimas: duas pessoas viveram um “amor bandido”. E como sói acontecer com aqueles que realizam a cena edípica, o sentimento de culpa, inconsciente ou mesmo consciente, leva à busca de castigo e expiação, ao martírio psicológico constante, por vezes aplacado com ajuda de drogas, e à deformação do caráter. No caso, todos os envolvidos sofreram importantes conseqüências: declínio social, alcoolismo e infelicidade mesclada com culpa, que no caso da paciente, era uma culpa consciente.
Evidenciando-se o risco cirúrgico motivado pelo estado culposo da paciente, e salientando-se que o trabalho da Psicologia Médica não é psicanálise aplicada em hospital geral, a reunião foi encerrada discutindo-se como trabalhar esta situação em um hospital geral. Como conduzir o necessário processo de elaboração para a diminuição da culpa da paciente e, conseqüentemente, do risco cirúrgico.

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