Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
30.06.2005 Dr. Decio Tenenbaum

Uma mulher de pouco mais de 60 anos, internada com o diagnóstico de pênfigo vulgar, doença auto-imune, iniciou acompanhamento psicológico com equipe de Psicologia Médica do C.M.P. associada a esta enfermaria por solicitação do médico que a internou. A paciente estava muito nervosa ao ser internada, não querendo ficar sem acompanhante na enfermaria. Ao iniciar os atendimentos, a paciente contou que sua doença começou a aparecer na mesma época em que seu filho mais velho foi vítima de um assalto e o mais novo começou a falar que iria sair de casa para se casar. Desde pequena sonhava em ajudar a mãe e os irmãos, inicialmente por conta das brigas provocadas pelo pai, alcoólatra, e depois devido à pobreza em que viviam. Ao casar trouxe a mãe, já viúva, e seus irmãos para morarem com ela. Perdeu a mãe há mais há 2 anos. Dizia ter uma vida perfeita e sem problemas, exceto por ter umas visões de quando em vez e um certo medo e desconfiaça em relação às pessoas. Embora atenciosa e parecendo sempre disposta a conversar, não se aprofundava em nada, mesmo quando estimulada pela terapeuta. Em virtude da gravidade de sua doença, foi-lhe prescrito tratamento venoso com corticóides em altas doses, que surtiu efeito e a paciente começou a melhorar rapidamente. Após 2 semanas de tratamento, a terapeuta começou a notar uma certa exaltação no humor da paciente, que a tornou quase eufórica. Para evitar o risco de infeção hospitalar, comum em pacientes que usam drogas imunossupressoras como são os corticóides, a equipe deu alta para a paciente assim julgou possível, mesmo antes da remissão total da sintomatologia. A paciente mantém-se em tratamento ambulatorial.

A discussão foi inicada com a exposição, feita pelo chefe da enfermaria, sobre a doença da paciente e o tipo de tratamento efetuado. Em seguida, foi ressaltada a freqüência em que se observa a relação entre a eclosão de uma doença dermatológica e situações de vida que envolvem uma ruptura abrupta de um vínculo simbiótico, como no caso presente entre a paciente e seus filhos, ou, então, com dificuldades na área da sexualidade, como em diversos casos já apresentados pela unidade de Psicologia Médica do CMP associada ao Serviço de Dermatologia.
Discutiu-se também a possibilidade do quadro de exaltação do humor apresentado pela paciente ter sido desencadeado pelo uso de corticóides. É fato conhecido pelos psiquiatras que este tipo de medicação pode induzir a quadros de confusão mental, psicoses francas e a exaltação do humor. Como este tipo de efeito colateral não ocorre com todos os pacientes que estão usando esta medicação, levantou-se a questão da predisposição individual a esses efeitos. Confirmando esta hipótese, no caso em questão, a paciente havia relatado experiências de cunho psicótico (visões e sentimentos persecutórios) antes de fazer uso da medicação.
A gravidade do caso, tanto orgânica quanto mental, instigou uma ampla discussão a respeito das possíveis estratégias terapêuticas e sobre a condução do acompanhamento psicológico, mas que não pôde ser aprofundada pelo adiantado da hora.

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