Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisora
23.06.2005 Dra. Anna Sanders Quental

Uma mulher de pouco mais de 40 anos, mãe de um adolescente e vivendo com seu segundo marido, foi internada para uma segunda cirurgia para correção de uma hérnia de disco na região lombar. A primeira cirurgia ocorreu há 5 anos, a paciente só fez pouco tempo de fisioterapia porque as dores pioraram e não ela fez nenhum acompanhamento ambulatorial. Há seis meses voltou a sentir as mesmas dores insuportáves (sic) nas costas, um pouco abaixo da cintura e que se irradiam por todo o membro inferior esquerdo, causando impossibilidade de deambulação. Contou também que às vezes sofre quedas na rua e em casa. Como passou a mancar, acha que ficou com uma perna mais curta depois da cirurgia.
A paciente estava muito nervosa na enfermaria. Estava assustada com a nova cirurgia, ao mesmo tempo em que encontrava-se muito aflita com sua situação conjugal, pois desde que as dores voltaram vem sentindo seu companheiro mais distante e suspeita que ele já tenha outra mulher. Por outro lado, revelou uma intensa e erotizada relação com seu filho, fruto do seu primeiro casamento, no qual ela foi vítima de violência física e sexual. Contou ter sido vítima de abuso sexual por parte de seu padrasto na infância e expulsa de casa ao contar para a mãe. Com a proximidade da cirurgia, expressou desejo de morrer como forma de alívio do seu nervosismo.
A cirurgia transcorreu sem nenhuma complicação, mas não eliminou e nem aliviou as dores da paciente. O companheiro saiu de casa quando ela voltou da cirurgia e, no momento, a paciente vem fazendo acompanhamento ambulatorial e foi encaminhada para tratamento psicológico.

A discussão foi iniciada ressaltando-se que a ausência dos colegas neurocirurgiões impossibilitava a discussão sobre a indicação das cirugias, na medida em que a realização das mesmas não melhorou a sintomatologia da paciente.
Em seguida, foi sublinhada a quantidade de material apresentado pela paciente (experiência infantil de incesto, relacionamento incestuoso com o filho, medo de morrer na cirurgia e suspeita de estar sendo abandonada pelo companheiro), apesar de pouco mais de uma semana de internação, e a dificuldade de se trabalhar tal complexidade em um hospital geral em tão pouco tempo. Nestas situações, a elaboração do diagnóstico psicodinâmico a partir da História da Pessoa é fundamental para a condução do caso.
A discussão se encaminhou para o tipo de funcionamento mental da paciente, caracterizado pela iminência de irrupção psicótica diante das exigências da vida. Tal fragilidade mental é característica dos estados limites ou bordelines.

retorna