Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisora
14.04.2005 Dra. Anna Sanders Quental

Um rapaz de pouco mais de vinte anos, casado e pai de três filhos, foi internado para se submeter a uma cirurgia para retirada de um tumor cerebral. Durante seu acompanhamento por um membro da equipe do CMP associada à enfermaria contou que esta era sua terceira internação em três hospitais diferentes e sua terceira tentativa de operar-se. No início disse que era porque os outros hospitais não faziam este tipo de cirurgia, mas depois ficou evidente que o paciente “fugira” nas vezes anteriores. Esteve muito ansioso durante todo o período de internação e quase não agüentou esperar também desta vez. Tinha medo da anestesia, de morrer, de ficar seqüelado e, principalmente, de fantasmas e assombrações, a ponto de não conseguir sair do seu leito à noite. Ele mesmo distingüia seus medos: o de fantasmas e assombrações dizia ter tido sempre, enquanto que os demais surgiram depois que soube que tinha um tumor cerebral.
Ao saber do diagnóstico do filho a mãe passou a acusar o pai de ser o responsável pela doença por ter-lhe batido e chutado a barriga quando estava grávida do paciente. O próprio paciente sentia-se culpado por não ter sido um bom pai, por ter feito uso, às vezes abusivo, de bebidas alcoólicas e outras coisas mais.
Após um mês  de internação foi operado com sucesso, não tendo tido nenhuma seqüela. A biopsia não revelou células cancerosas

A discussão girou em torno dos medos do paciente. Inicialmente apontou-se a necessidade de fazer-se a distinção entre os medos atuais (da cirurgia, da anestesia, das possíveis seqüelas) e o medo de fantasmas e assombrações, antigo e relacionado às culpas do paciente. Como costuma acontecer, a situação traumática atual (cirurgia) estava mobilizando situações traumáticas passadas, as quais estavam dando o colorido afetivo à experiência atual. Assim, para a elaboração da situação atual é necessário a elaboração dos traumas passados. E nesse sentido a análise da dinâmica relacionada aos sentimentos de culpa do paciente, que pelo relato pareciam estar ligados ao uso de bebidas e drogas, a sentimentos de ter falhado como pai e a uma agressividade inconsciente voltada contra os próprios pais, serviu para se compreender um pouco mais de seus traumas passados. A discussão encaminhou-se para a relação que costuma existir entre sentimentos de culpa, o tipo de agressividade do paciente e a percepção inconsciente dos desejos filicidas dos pais (o pai chutando a barriga grávida da mãe). Tal conjuntura psicodinâmica costuma prejudicar a elaboração da experiência edípica e estar associada ao desenvolvimento de uma agressividade e culpa também inconscientes e dirigidas aos pais com prejuízo de toda a dinâmica de construção da identidade.

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