Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
17.03.2005 Dr. Decio Tenenbaum

Uma mulher de quase 40 anos, portadora de hipotireoidismo, internou-se para submeter-se a uma tireoidectomia parcial. Estava nítidamente aborrecida e, muito contrariada, iniciou seu acompanhamento psicológico feito por um membro da equipe de Psicologia Médica do CMP associada à enfermaria. Na primeira consulta a contrariedade da paciente ficou esclarecida. Há mais ou menos dois anos, após a morte de sua irmã mais velha, que foi quem a criou “porque minha mãe ficava o tempo todo deitada na cama, desgostosa porque meu pai tinha mulheres na rua”, a paciente começou a sentir um aperto na garganta e uma amiga notou que seu pescoço estava aumentado de tamanho. Só foi procurar médico muito tempo depois, quando o bócio já estava bastante crescido e só aceitou internar-se depois que os exames mostraram que não tinha câncer, doença da qual sua irmã e sua mãe, esta um ano depois daquela, morreram: “Como eu não ia morrer de câncer, vim para morrer na cirurgia”. A paciente contou ainda que depois da morte de sua irmã a família se desmantelou: sua mãe morreu, seus irmãos se separaram, seu casamento acabou e sua filha passa mais tempo com o pai do que com ela.
Foram apenas quatro consultas antes da cirurgia, sendo que nas três últimas ficou claro que a paciente cresceu sentindo que “era como se não existisse” e até hoje sente-se uma pessoa desnecessária, inclusive para a própria filha. Uma vez tendo ficado patente que  a paciente não havia ainda conseguido elaborar sua dupla perda, as conversas restantes giraram em torno deste tema. A cirurgia realizou-se com sucesso e na primeira consulta após a cirurgia a paciente, em tom de brincadeira, acusou a psicóloga de não tê-la deixado morrer. Recebeu alta para acompanhamento ambulatorial e desde então vem conversando por telefone com a psicóloga, mas ainda não conseguiu retomar as conversas pessoalmente.

A discussão girou em torno da dificuldade da paciente elaborar seus lutos, caracterizando um caso de luto patológico. Foram levantadas algumas hipóteses quanto a esta dificuldade, sendo a mais consistente a baseada na evidência de que a mãe da paciente, desgostosa com o fracasso de seu matrimônio, desenvolveu um quadro depressivo que a afastou dos filhos. Impossibilitada de exercer a função materna, escorou-se na filha mais velha tornando-se uma ausência presente. Assim como é sempre mais difícil elaborar uma perda do que não se teve, sabe-se que este tipo de relação é geradora de sentimentos ambivalentes, cujos componentes hostis, quando reprimidos, podem paralisar o processo de luto.

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