Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
13.01.2005 Dr. Decio Tenenbaum

Uma moça de 21 anos, solteira, natural do nordeste do país, mãe solteira de uma menina de 5 anos, foi internada com um quadro grave de dermatite atópica com infecção secundária. Relatou que sua doença iniciou em sua puberdade (11 anos), acometendo inicialmente as dobras dos braços, das pernas e o pescoço; evoluiu em surtos e teve uma piora significativa quando, aos 14 anos, veio mandada para o Rio de Janeiro para trabalhar como empregada doméstica e ajudar financeiramente sua família.
Única filha, e a mais velha de uma prole de 4 filhos, já aos 7 anos cuidava da casa e dos irmãos quando o pai saía para trabalhar e a mãe para beber. Quando estava bêbada, o que era bastante freqüente, a mãe mostrava-se particularmente irritada e agressiva apenas com ela e freqüentemente a ofendia chamando-a de prostituta e que iria “dar para todo o mundo quando crescesse”. Aos 15 anos teve seu primeiro namorado, um homem de 30 anos que a deixou após tirar sua virgindade, e aos 17 anos engravidou de um rapaz com quem teve apenas uma relação sexual. Vinha fazendo tratamento em posto de saúde sem nenhuma melhora e frequentava um grupo psicoterapêutico a mando de sua patroa, mas sem nenhuma convicção.
Em sua primeira internação, tímida e calada, com expressão inquieta e entristecida, referiu-se a sua pele como nojenta e suja, disse ter ânsia de vômito com seu próprio cheiro e sentir-se uma pessoa anormal. Contou que tinha muita vergonha de si mesma por causa de sua doença e que acabava invariavelmente se afastando dos rapazes que por ela se interessavam. Pouco participativa, esperava conseguir uma cura total e completa de sua doença com a ajuda divina, apesar de ter recebido várias vezes a informação de que sua doença era crônica, de difícil cura e geralmente apenas com controle das crises. Devido ao seu estado foi medicada intravenosamente apresentando uma melhora de seus sintomas, o que aumentou sua expectativa de cura completa, apesar de ter sido reiteradamente informada que os sintomas poderiam e provavelmente voltariam com o término do efeito da medicação. Recebeu alta para tratamento ambulatorial com remissão parcial da sintomatologia, ainda esperando uma cura total com a ajuda divina e dizendo que ainda não havia aceitado  a idéia de que sua doença não teria cura. Duas semanas depois a paciente foi reinternada devido a intensa piora de seu quadro dermatológico. Seu estado de espírito mesclava desesperança, muita angústia, agitação e, mais participativa, questionava muito o tratamento que estava recebendo. Ainda internada, já apresenta melhora de seu quadro clínico, dermatológico e psicológico, está aceitando mais o fato de que a cura total com a interferência divina provavelmente não irá acontecer e que tem uma doença crônica que necessita de acompanhamento regular. Graças a uma melhor coordenação do trabalho em equipe, a alta da paciente está sendo preparada com vagar, tornando possível o preparo para o tratamento ambulatorial, clínico e psicológico. Este último será feito pela psicóloga do ambulatório, com larga experiência nestes casos.

A discussão foi inicada ressaltando-se a precariedade da relação materna, a rejeição e o ódio conseqüente a isto. Foi sugerido que a rejeição precocemente sofrida pela paciente  pode estar se refletindo na rejeição que ela própria tem por sua pele.
Em seguida foi lembrado que os quadros de psoríase, dermatite atópica, vitiligo, alopécia e prurido genreralizado apresentam uma relação direta com o desenvolvimento da sexualidade, sendo freqüente a observação de que uma melhor elaboração da própria sexualidade é acompanhada por uma melhora significativa do quadro dermatológico.
Finalmente discutiu-se em profundidade o preparo e o encaminhamento da paciente para o tratamento ambulatorial.

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