Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

 

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisora
18.11.2004 Dra. Anna Sandres Quental

Um homem de 52 anos foi internado para fazer uma cirurgia de hérnia de disco na região lombar. Após a cirugia, realizada com sucesso, o paciente começou a apresentar outros sinais de compressão medular e, submetido a exames, foi evidenciada a presença de um tumor maligno de medula já em estágio avançado. Acompanhado por um dos membros da equipe de Psicologia Médica do C.M.P. associada à enfermaria, já na primeira entrevista, e em sua primeira fala após as apresentações, o paciente queixou-se de estar deprimido com a sua situação e de se sentir muito mal por ter traído a sua mulher. Em todos os atendimentos fez referência a esta traição, ora querendo desculpar-se, ora mostrando-se exageradamente culpado e ora esperando a absolvição divina através de promessas de passar a freqüentar a igreja junto com sua esposa. Ao mesmo tempo, em outros momentos, dizia ter tido uma vida muito boa como caminhoneiro viajando pelo país (quando tinha a oportunidade de trair sua esposa). Nunca fazia menção à sua doença, mesmo com seu quadro clínico piorando; dizia mesmo não querer saber. Por vezes pareceu estar despendindo-se da vida, embora dissesse ter esperanças de se curar. Veio a falecer três semanas após ter sido internado.

Iniciando-se pela culpa exagerada do paciente, discutiu-se este tipo de reação emocional, descrita por Irving L. Janis (1958) em seu livro Psychological Stress, na qual os sentimentos hostis e destrutivos desencadeados pela ameaça de aniquilamento (no caso, doença fatal) são tranformados em sentimentos de culpa com o objetivo inconsciente e mágico de, assim, existir a possibilidade do desenlace temido ser alterado por uma força superior, no caso o perdão divino.
Aprofundando-se o tema, abriu-se a discussão sobre qual seria o foco do atendimento psicológico: a elaboração do sentimento de culpa ou a elaboração da angústia de morte que se avizinhava?
Para responder a esta pergunta precisou-se esclarecer o caráter sobredeterminado dos sentimentos de traição e de culpa do paciente, tendo sido necessário inserir o discurso do paciente às circunstância que ele estava vivendo, internado num hospital com uma doença fatal e com seu quadro clínico piorando a olhos vistos. Desde as fases descritas por Elilzabeth Klüber-Ross em seu livro Sobre a Morte e o Morrer sabemos que o reconhecimento de erros passados é um elemento importante quando negociamos com Deus. Desta forma, a culpa exagerada, e em contradição com a saudade de sua vida quando saudável, aponta para uma tentativa inconsciente de se aumentar o valor da negociação. Além disso, também faria sentido pensar, como foi ressaltado na discussão, que ele próprio poderia estar inconscientemente se sentido enganado e traído (pela vida, por Deus, etc.) com o fato de morrer com pouco mais de 50 anos sem nunca ter tido nenhuma doença que o preparasse para isso.
A conclusão que respondeu a pergunta acima, foi no sentido de que ficar preso na elaboração da culpa exagerada é alimentar a posição defensiva do paciente. O foco do trabalho da Psicologia Médica seria a elaboração da situação real em que o paciente estava imerso e relacionada com a aproximação da própria morte.

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