Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisora
11.11.2004 Dra. Anna Sandres Quental

Um paciente de 68 anos ficou dois meses internado por insuficiência cardíaca, cirrose hepática, diabetes mellitus e hiperpigmentação a esclarecer. Durante este tempo foi acompanhado por um membro da equipe de Psicologia Médica do C.M.P. associada a esta enfermaria. Seu tema preferido, presente em todas as sessões, era a violência. Em tom sempre arrogante e desdenhoso, contava histórias de corrupção de políticos, de álcoólatras, traficantes e estupradores, finalizando a todas sempre com a lembrança de sua cidadezinha natal no nordeste com a conclusão de que lá as coisas eram melhores porque estes problemas eram resolvidos à bala. Nem parecia que ele, portador de cirrose hepática, havia feito uso abusivo de bebidas alcoólicas e que um de seus filhos, envolvido com o tráfico de drogas, fora assassinado numa das batalhas da guerra entre quadrilhas rivais. Foram dezenove atendimentos, nos quais o terapeuta sentiu grande dificuldade em estar com o paciente. As histórias e a maneira de contá-las, intercalando sua fala com cuspidas e escarradas, faziam o terapeuta sentir-se enojado.

Ressaltando-se os aspectos violentos do paciente, seu uso maciço de identificações projetivas para se livrar destes conteúdos inconscientes e o medo dele morrer, como contava que acontecia com aqueles que denunciavam os criminosos, discutiu-se a situação comumente vivida pelo terapeuta que, mesmo percebendo e entendendo a dinâmica mental do paciente, encontra dificuldades em  nela interferir, neste caso por conta de sentimentos nele despertados pela relação com seu paciente.
Seguindo-se a sugestão feita por Michael Balint (Psychoterapeutic Techniques Medicine, Tavistock Publications, London, 1961), fez-se menção à importancia do terapeuta considerar estes sentimentos como um sintoma do paciente e utilizá-los para entender o doente e a relação que se estabeleceu entre ambos como forma de se evitar o impasse terapêutico acima relatado.
Mesmo desvalorizando o que lhe estava sendo oferecido pelo hospital através da idealização infantil de sua cidade natal, a consciência de que precisava de ajuda o fez voltar a procurar o hospital para continuar seu tratamento ambulatorial e a investigação da hiperpigmentação.

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