Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
21.10.2004 Dr. Decio Tenenbaum

Um homem de aproximadamente 60 anos foi internado com um quadro de psoríase com início há três meses. Casado, usuário de bebidas alcoólicas há muitos anos e recém aposentado, foi trazido ao hospital por sua esposa para ser internado sob a alegação de que ela não estava mais conseguindo cuidar dele em casa. Na enfermaria o paciente mostrava-se alegre e comunicativo, fazendo várias brincadeiras e contando piadas, mas, desde o início, a equipe estava cética quanto à sua adesão ao tratamento.
O paciente teve três atendimentos com uma das componentes da equipe de Psicologia Médica associada à enfermaria, durante os quais ficou evidente seu distanciamento conjugal e sua culpa pela vida extra-conjugal que teve desde o início do matrimônio, e que foi interrompida abruptamente há 12 anos, época em que apresentou o primeiro, e único, episódio de sua doença, tendo sido internado nesta mesma enfermaria. Embora brincalhão com todos, em suas conversas com o membro da equipe de Psicologia Médica parecia estar despedindo-se da vida quando dizia estar satisfeito com a vida que tivera, que não via mais nenhuma perspectiva de vida desde sua aposentadoria, que a morte estava perto e por isso adoecera. Seu único projeto era voltar para a sua cidade natal, mesmo sem a sua mulher e os filhos e lá viver, sozinho, o resto de seus dias.
Não vendo indicação para mantê-lo internado e avaliando que seria arriscado iniciar o tratamento com as drogas imunossupressoras que são utilizadas atualmente no tratamento da psoríase porque exigem maior controle médico, têm várias restrições, inclusive quanto ao uso de bebidas alcoólicas, exigindo, portanto, maior adesão do paciente ao tratamento, a equipe resolveu iniciar apenas o tratamento tópico e encaminhar o paciente para o ambulatório.

Iniciou-se a discussão ressaltando-se que a defesa maníaca do paciente pode ter iatrogenicamente induzido a equipe a dar alta precocemente, sem uma adequada preparação para a continuidade do tratamento em regime ambulatorial. Aberto o tema da dificuldade de adesão ao tratamento que certos pacientes apresentam, fez-se a pergunta: como enfrentar este desafio? A resposta não está em se criar um novo protocolo de atendimento, mas em saber o que tratar, se a doença ou o doente. Para a doença, a Medicina está sempre criando protocolos de acordo com a evolução do conhecimento científico e nos quais os pacientes podem ou não ser incluídos dependendo das indicações e contra-indicações de seu quadro clínico, como aconteceu com este paciente. Para se tratar o doente é mister se ter uma compreensão antropológica do adoecer que inclui a compreensão da crise aberta pelo próprio adoecimento e das circunstâncias nas quais a doença irrompeu. No caso apresentado, a doença irrompeu num homem de 60 anos no qual a aposentadoria relembrou a crise (gerada? acompanhada?) de impotência que ocorreu há doze anos atrás. Tanto há doze anos como há 3 meses surgiram psoríase e crise conjugal, agora agravada com sinais depressivos importantes. Dar alta sem ter esta situação minimamente elaborada pelo paciente é dar alta precoce e com maior probabilidade de não se conseguir a adesão do paciente ao tratamento.

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