Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
23.09.2004 Dr. Giorgio Trotto

Uma mulher de 38 anos, locomovendo-se em cadeira de rodas, foi internada devido a paralisia e dor nos membros inferiores com início há aproximadamente 5 anos. O atendimento da equipe de Psicologia Médica integrada à enfermaria foi solicitado pelo médico assistente por achá-la pouco participativa na enfermaria e no tratamento: concordava com tudo que lhe era dito, fazia tudo que lhe era solicitado, mas parecia se interessar pouco por tudo que estava lhe acontecendo. Os exames revelaram a presença de um tumor cerebral benigno.
Nos atendimentos psicológicos a paciente logo revelou viver uma difícil situação conjugal na qual não sentia ser levada em consideração pelo marido, que dizia ser uma pessoa explosiva e agressiva. Submissa, preferia se omitir a ter que enfrentar uma discussão para defender seus pontos de vista. Dizia: “Tenho que sofrer muito para que ele me respeite”. A dificuldade de se comunicar com seu médico também era patente e parecia que ela esperava ser maltratada também por seu médico. Em relação à sua doença, também não expressava seus sentimentos: por ser Evangélica achava que tinha que se conformar com tudo.
Com a evolução do atendimento psicológico, a proximidade da cirugia pressionando-a e o medo de morrer podendo ser expresso e elaborado ajudou a que sua revolta em relação ao rumo que sua relação conjugal havia tomado e em relação à sua doença pudessem ser minimamente expressas e elaboradas. A paciente teve um ótimo per e pós-operatório e saiu de alta bem. No momento encontra-se em tratamento fisioterápico e já está conseguindo dar os primeiros passos.

A partir da observação do tempo transcorrido entre o inicio da sintomatologia e a formulação diagnóstica, a discussão se iniciou com o tema da iatrogenia. A possibilidade de ter havido incompetência médica ou, então, ter ocorrido uma obnubilação na capacidade diagnóstica do primeiro médico por indução irracional da paciente foram examinadas.
A psicodinâmica de vítima, os ganhos secundário e, principalmente, o primário de poder imputar culpa nos outros estabelecendo uma relação com fortes aspectos sado-masoquistas e foram resaltados. A discussão se encaminhou para o possível risco de transferência negativa no tratamento destes pacientes.
Finalmente, chamou-se a atenção para o fato de que este tipo de psicodinâmica pode levar a escolhas de objeto do tipo que a paciente fez.

retorna